Crimson Peak e o Terror Romântico

Penso que é fácil ir atrás do marketing para Crimson Peak à espera de um slasher de terror (ainda por cima com estreia tão próxima do mítico dia 31 de Outubro) com carradas de gore à espreita. Uma mansão assombrada, um conjunto de personagens incautas, e um número considerável de fantasmas só podem significar uma coisa, certo?

Errado.

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Guillermo del Toro, o realizador, subverte as nossas expectativas (de modo negativo, ditam alguns queixumes) ao atirar os monstros fantasmagóricos para a orla da trama, focando-se antes nas relações perversas que se formam entre os quatro protagonistas. Mia Wasikowska, Tom Hiddleston e Jessica Chastain (*) entregam-se de corpo e alma aos papéis arquitetados pelo cineasta mexicano, numa colaboração que espero estender-se para os seus próximos filmes.

Chastain, principalmente, é fantástica como Lucille Sharpe. Logo na primeira instância em que Lucille entra em cena sabemos estar algo de errado com ela, seja pelas palavras sussurradas ao ouvido do seu irmão Thomas (Hiddleston), ou pelo seu olhar sombrio. Lucille é a personagem que mais se transforma ao longo do enredo, despindo camadas e camadas de pele em cada cena até desnudar o seu âmago corrupto durante a sequência final.

Assistir a esta progressão dramática é absolutamente fascinante: de recorrente vestido vermelho, Lucille capta de imediato a atenção do espectador. Chastain é uma belíssima musa para esta fase da carreira de del Toro, mas a atriz não é all looks, no brains; não, Chastain mostra uma capacidade camaleónica de transfigurar a sua personagem mundana numa irresistível psicopata amoral. É a metamorfose de borboleta que a própria Lucille, equiparada, no filme, a uma feia traça, aspira concretizar.

(*) Infelizmente, Charlie Hunnam não passa de um bonito amador a tentar singrar num ringue de autênticos profissionais: o ator britânico é atroz no papel de Dr. Alan McMichael, forçando um sotaque artificial numa cara laroca sem a porção integral do talento masculino que o tornou fascinante em Sons of Anarchy.

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Fora os dotes de representação dos protagonistas, Crimson Peak é um filme cem porcento enfeitiçado com a ambiência das produções clássicas da Hammer, apostando fortemente no set design sumptuoso e nos visuais cativantes para veicular uma narrativa mais atmosférica do que propriamente visceral, ao contrário dos seus primos do terror contemporâneo.

O filme é, de certo modo, uma carta de amor aos passados tempos do terror gótico que permeava o cinema americano. Os sustos não eram escravos à engenharia artificial de falhados jump scares, mas sim criados através das imagens, dos sons, das performances envolventes dos atores. Embora Crimson Peak tenha a sua dose de jump scares, afasta-se do género contemporâneo para confeccionar uma refeição de cores requintadas e cenários aparatosos empanturrados de detalhes visuais sacados do giallo de Dario Argento e Mario Bava.

Por lástima, a intenção imagética de del Toro perde-se por completo durante a segunda metade do enredo. Após uma introdução energética às personagens, e uma sequência particularmente perturbadora numa casa de banho enevoada (gore explícito no seu melhor), o filme morre ao realocar-se para a titular mansão assombrada.

Tal acontece porque a construção do romance clássico (ler: melodramático) entre Edith (Wasikowska) e Thomas não é suficientemente intrigante para prender a audiência, de olho pesado e bocejo a pronto. Há algo de vibrante nas interações iniciais entre Edith e Thomas que se perde aquando a sua chegada a Allerdale Hall, que só é recuperada nos últimos quinze minutos do filme. Apesar disso, a audiência é facilmente embalada pelas imagens que del Toro cria, tornando toda a experiência de Crimson Peak verdadeiramente sensorial.

No fim, quem gosta de histórias emocionantes e personagens carismáticas, que realmente puxam ao sentimento, vai ficar desiludido com Crimson Peak, em que o estilo (substanciado) sobrepuja a atenção mais clássica à narrativa. Do mesmo modo, quem espera um filme típico de terror (cue in Atividade Paranormal) vai sair da sala a amaldiçoar o dinheiro gasto, após duas horas submetido a um romance gótico.

Mas venham pelos fantasmas, e fiquem-se pelos visuais, porque tão cedo não existirá tamanha throwback ao terror de época estilizado que tanto apaixonou del Toro.

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