Guillermo del Toro e Pacific Rim (2013)

Faz bem libertar a nossa criança interior de vez em quando. Não numa forma de respirar nostalgia, mas de reviver o espírito infantil de outrora como contraponto ao peso da idade adulta. Em Pacific Rim, Guillermo del Toro faz precisamente isso, criando um mundo a preto e branco, em que a dicotomia entre o herói e o vilão não pode ser mais óbvia.

Essa ausência de complexidade pode ser um símbolo de preguiça para alguns, donos de uma aversão a esse tipo de cinema fácil. Estilo sobre substância, resmungam, e passam para o próximo. É, penso, uma atitude perfeitamente legítima mas que, neste caso particular de Pacific Rim, peca por não compreender as intenções genuínas do realizador.

Porque em Pacific Rim, tudo o que Guillermo del Toro queria era ter robôs gigantes a espancar dinossauros alienígenas.

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O filme passa-se em 2020, quando a Terra está em guerra com os Kaijus, monstros colossais emergidos de um portal interdimensional no fundo do Oceano Pacífico. De modo a combater esses monstros, a humanidade uniu-se para criar os Jaegers: gigantes mechas humanóides, controlados cada um por pelo menos dois pilotos, cujas mentes se unem em sintonia.

A premissa é fruto da paixão infantil que Del Toro tinha pelos filmes originais do Godzilla e dos seus adversários, em que a principal preocupação era ter essas criaturas a guerrearem umas com as outras, dizimando cidades inteiras no processo. É impossível não reparar na forma como este entusiasmo jovem influenciou todo o filme; Pacific Rim vive dos detalhes das criaturas, dos robôs, das luzes em néon que coloram os campos de batalha e do próprio estilo campy de alguma delas – a certo ponto, um dos Jaegers agarra num barco e utiliza-o como uma marreta para brutalizar um dos Kaijus.

Escusado é dizer que muita da satisfação de ver o filme é oriunda dos combates brutais entre os dois colossos, e seria fácil descartar Pacific Rim como simples entretenimento infantil. Mas tal simplesmente não é verdade.

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Guillermo del Toro foca a narrativa em dois protagonistas, Raleigh Becket (Charlie Hunnam) e Mako Mori (Rinko Kikuchi). Ambos têm que ultrapassar as suas diferenças para se unirem e repartir o peso mental que é conduzir um Jaeger, e é este conceito de partilha que dá ao filme o seu núcleo emocional.

Os pilotos dos mechas, ao serem obrigados a ligar-se psiquicamente, revelam ao seu parceiro todas as suas memórias mais íntimas e sentimentos de revolta que possam armazenar no seu interior, sem outra escolha que não aceitarem-se mutuamente para o bem da Humanidade. Ou seja, ou nos damos todos bem, ou morremos, ponto.

Este conceito pode parecer quase simplório (e, de certo modo, utópico) a olhos adultos, mas Pacific Rim, apesar do ar nostálgico que acaba por emanar, tem como audiência principal as crianças ingénuas de olhos esbugalhados, que só querem ver edifícios a quebrar ao meio e Kaijus a ganir de dor. No entanto, não é por isso que deixa de ter um enorme valor dramático e temático, quase como uma fábula infantil com uma moral universal capaz de emocionar os mais jovens.

A verdade é que o cinismo da idade adulta é quase uma barreira para apreciar Pacifc Rim na sua totalidade, e o filme também não é sem defeitos. Hunnam foi uma má escolha para protagonista; o ator é competente, mas ausente de carisma, nada mais que uma cara bonita a mostrar o seu físico formidável num filme com demasiada paciência para ele. O extenso elenco de personagens é igualmente irregular na sua caracterização de um mosaico humanista de pessoas de todas as culturas e sexos, não só por, invariavelmente, se focar em homens de tez branca, como por relegar Maiko Mori para segundo plano, quando devia ser ela a protagonista. Kikuchi capta de imediato a atenção do espetador, algo que Hunnam nem sonha conseguir.

Pacific Rim não é o típico blockbuster super-negro, super-sério, a que os verões nos multiplexes nos têm habituado. É um filme para crianças, realizado por uma empática man-child com uma das mais vivas imaginações do cinema contemporâneo. Nunca confundam a simplicidade da sua mensagem com falta de substância, e deixem-se também apaixonar pelo vibrante mundo de cores e monstros gigantes que Del Toro criou para nós.

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