Sicario e o assassino implacável

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Sicario é pesado. É violento, mas não daquela maneira excêntrica que hoje em dia nos preenche os ecrãs: não há o gore desmesurado de The Walking Dead, ou a ação non-stop de The Raid 2 (2014); apenas um metódico parcelar dos confrontos brutais entre as tropas americanas e os cartéis militares do México.

Bombas explodem, cabeças rolam, tímpanos rebentam, mas não quando os esperamos, nem da maneira a que os estamos acostumados a ver. Denis Villeneuve (o já consagrado realizador de Enemy (2013) e Prisoners (2013)) constrói a tensão como um mestre – faz lembrar Brian de Palma no seu auge, e as sequências de ação parecem fruto de um intensivo estudo dos tiroteios meticulosamente arquitetados de Michael Mann.

É, também, um filme lindíssimo: o sangue seco de Kate (Emily Blunt, a caminho do pico da sua carreira) derrete-se sob a água escaldante do seu chuveiro, as silhuetas dos soldados americanos dissolvem-se no pôr do sol alaranjado, e as cenas de noite pintam um quadro moderno da visão noturna militar. A cinematografia do incomparável Roger Deakins faz salivar o mais ressequido espetador.

Mas melhor do que ela só o olho para a composição de Villeneuve. Nenhuma frame está no filme por acaso: o realizador utiliza shots aéreas (quase como câmaras de vigilância) das infinitas estradas da fronteira entre o México e os Estados Unidos para alargar o conflito das cenas, empilhando tensão em cima de tensão até esta explodir (e, por vezes, implodir) num mar catártico de sangue.

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Essa chuva encarnada é apenas um lado da filosofia niilista de Sicario. Taylor Sheridan, o guionista, não oferece soluções fáceis (ou soluções sequer) para a drug war mexicana, insinuando uma encruzilhada interminável de moralidades acinzentadas e pantanosas. No mundo de Sicario não há heróis, ou vilões: apenas Homens.

Kate vive sozinha nesse mundo de homens (o ser masculino, sem capital): o facto de ser praticamente a única personagem feminina e adulta afunila a sua perspetiva ingénua quanto às operações clandestinas em território inimigo. Não é propriamente dito, mas é certamente subentendido que essas operações são todas fruto único da virilidade obstinada dos homens, corrompidos que estão pelo “sistema”.

O foco em Kate é particularmente refrescante num género normalmente dominado por rugidos másculos e testosterona incontornável. Assim, Sicario constitui outra instância de um ano de cinema preocupado em desenvolver perspetivas femininas de situações pouco exploradas pelo blockbuster comum. Ex Machina, o novo Mad Max e até mesmo o underrated Tomorrowland são perfeitos exemplos desta atitude.

No entanto, é o Alejandro de Benicio Del Toro de quem a audiência se vai recordar. Destemido, silencioso, violento, o prototípico Clint Eastwood-type deste thriller de crime situado num panorama árido de western. A presença de Del Toro é magnética, e o ator aproveita-se do estilo no-bullshit de Alejandro para veicular mais emoção com as suas expressões do que com as suas palavras. Um piscar de olhos e entendemos tudo aquilo que o guia na sua busca por vingança. Uma performance digna de nomeação para Oscar de melhor ator secundário, talvez?

Mas nem tudo funciona da melhor forma em Sicario; o segundo acto é atroz na maneira como desenvolve a narrativa, enrolando as personagens em investigações à C.S.I. sem grande interesse, e algumas tangentes do enredo são sub-exploradas e não superam os lugares-comuns do género (o policia mexicano de Maximiliano Hernandez vem à cabeça). Aqui, nota-se que Villeneuve teve alguma dificuldade em exceder o clímax do tiroteio na autoestrada, que dá o proverbial pontapé ao conflito nuclear do filme.

Então devolve tensão à ação, enfrascando as personagens num túnel de emigrantes ilegais em que nunca vemos o inimigo; apenas ouvimos facas a romper o estômago dos criminosos, e flashes de luz violentos. Esta cena faz uso de imagens negativas e de luz natural para criar um ambiente noctívago e obscuro, como as motivações nodosas dos nossos protagonistas. É cinema no seu melhor.

Assim, Sicario representa o auge da trama viril que pretende subverter, ao mesmo tempo que sugere um conflito mais macro da guerra contra as drogas na fronteira mexicana. “Esta é uma terra de lobos”, diz Alejandro a Kate. Lobos; masculino, plural. Mas Kate é uma idealista num mundo que já não perdoa o idealismo. Kate é uma inocente que não se imagina ingénua, apesar de o ser. E, no fim, continua perdida naquele mundo de homens.

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