O Optimismo de Perdido em Marte

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É impossível acabar de ver Perdido em Marte sem um sorriso na cara. As personagens são tão bem dispostas, o humor bate tão fundo, e a própria história é demasiado positiva para não nos esticar o canto dos lábios. Claro está que o novo filme do mestre Ridley Scott não se destina a cínicos crónicos (*) nem a outro tipo de amantes do high brow cinemático; o filme prefere antes aquecer o coração das massas com a inesgotável boa disposição dos seus protagonistas.

E o que há de errado com isso?

Perdido em Marte opta por um tipo de cinema pouco comum hoje em dia: o cinema optimista. Nolan trouxe-nos Interstellar (2014) no ano passado, um épico literalmente interestelar que resolveu as teias complexas da sua trama com viagens temporais e filosofias metafísicas. O intuito era o de apelar ao intelecto humano, ainda que com uma vertente claramente intimista e sentimental pronta a forçar as lágrimas em catadupa dos nossos olhos. Por outro lado, Alfonso Cuáron ganhou o Oscar para Gravity, em 2013, uma obra puramente técnica de subtexto religioso que escapou a grande parte da audiência, imergida que estava no seu espetáculo sensorial.

(*) Claro que há problemas com Perdido em Marte, não seja este um filme do Ridley Scott. A narrativa em si não apresenta grandes surpresas, há quem possa achar o humor demasiado presente num filme de sobrevivência, e as personagens não têm propriamente um desenvolvimento aprofundado. O núcleo temático também não responde a perguntas mais complicadas como os clássicos Blade Runner (1982) e Alien (1979), mas a verdade é que também não as coloca. 

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Destaco estes dois filmes por serem ambos de ficção científica, género partilhado por Perdido em Marte. Ao contrário destes, porém, Perdido em Marte nunca ousa o seu desespero cismado, capaz de devastar a alma do mais irresoluto Homem. O contraste de tons é drástico mas refrescante; parece-se com o provar de um calórico doce há muito esquecido pelo nosso paladar.

No entanto, não pensem que o ar leve de Perdido em Marte o torna numa comédia espacial. Não: Ridley Scott nunca se esquece de atirar as suas personagens para circunstâncias aterrorizantes sempre que pode; opta é por resolvê-las com um humor frenético impossível de não amar. Há muita tensão em Perdido em Marte, muitos conflitos cientificamente complexos e complicados de entender. A diferença reside na sua abordagem inspiradora e audaciosa.

Matt Damon como Mark Watney é a prova disso. Watney é a síntese do herói americano: altruísta, generoso, com um imperturbado amor pela sua pátria e pela missão para com o seu país. Astronauta e botânico, o homem é um autêntico MacGyver espacial, dotado com uma mente genial e um ânimo optimista e inabalável. A sua confiança diz-nos que nunca devemos desistir perante um problema, por mais desesperados que estejamos. Afinal de contas, o engenho humano é sempre capaz de ultrapassar qualquer obstáculo.

Repetir a palavra “optimista” uma vez mais pode parecer redundante, mas é isso que verdadeiramente distingue Perdido em Marte dos seus outros primos do mundo sci-fi. Não parece a escolha óbvia, a de tornar um moribundo e solitário astronauta num comediante bem disposto, mas é precisamente graças a ela que o filme resulta. A audiência sorri, ri, e admira aquele baluarte do espírito humano.

Podia referir o elenco fantástico reunido por Scott (Jessica Chastain, Chiwetel Ejiofor, Jeff Daniels, Donald Glover… não há palavras que lhes façam jus), ou a trilha sonora inesperadamente disco que anima todas as cenas em que marca presença (a “Waterloo” dos Abba é usada com particular originalidade), mas isso não chegaria para resumir o talento colossal que se reuniu para tornar este filme na exuberante peça cinemática que é.

De coração na mão e energia para dar e vender, Perdido em Marte é uma honesta surpresa para partilhar com toda a família. Sejam todos piratas espaciais por duas horas, e divirtam-se; o cinema também serve para isso.

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