RECAP de Heroes – Parte I

Há coisa de 9 anos atrás, estava eu a ler uma revista qualquer com um editorial enorme acerca da sensação televisiva do momento: Heroes, uma série sobre super-heróis “sérios” numa altura em que tal era uma abstracção completa para o público geral. Tinha desenhos estilizados à laia de banda desenhada, pessoas de fronha carrancuda e mãos brilhantes com bolas de energia que consolavam o meu ego recém-adolescente.

Assim que chegou à FOX (ou foi primeiro à TVI?) certifiquei-me de acompanhar todos os episódios. A primeira temporada molhou-me as cuecas: a ultra-seriedade do tom entrava em choque com o meu cómico vizinho Homem-Aranha, mas não deixava de ter momentos de comic-relief perfeitos, aliados à narrativa vai-acabar-o-mundo que empolgava de hora a hora.

Depois a magia esmoreceu. Agora, com a estreia da continuação Heroes Reborn (esta segunda-feira no canal Syfy), decidi recapitular os acontecimentos da série que a antecedeu, numa tentativa de perceber o que correu mal, e na esperança que as coisas melhorem com os novos episódios.

VOLUME 1: GENESIS

7474

Em vez de temporadas, Tim Kring, o criador da série, decidiu dividir a história em volumes, tal como são aglomerados os diferentes fascículos de banda-desenhada. Este tipo de aproximação ao meio físico da BD era um dos pontos fortes da primeira temporada: uma das personagens, Isaac Mendez, pintava o futuro através de quadradinhos belíssimos que podiam sair de um qualquer comic. 

Parte do interesse vinha do choque de culturas entre o drama primetime na génese de Heroes e a sua virtuosidade geek. Ao contrário do esperado, Kring não tinha grande background em histórias de superheróis, pelo que a originalidade refrescante da série estava na maneira distinta com que nos contava os clichés habituais da banda desenhada. A sua perspetiva virgem atraía veteranos e ignorantes de igual forma.

Assim, o primeiro volume introduziu-nos a uma série de personagens deslumbrantes, como Hiro Nakamura, um coitado nerd que sonhava ser um samurai e Claire Bennet, uma cheerleader imortal. O carisma destes jovens entrava em confronto com o mundo adulto e enigmático de personagens como Noah Bennet e O Haitiano, cujo passado era revelado aos poucos que nem um mistério de Perdidos. A história individual de cada uma destas personagens possuía o elemento comum d’A Companhia (ou Primatech), uma agência governamental com um propósito desconhecido.

Em Genesis, o mundo humano é assolado por uma nova onda de seres com superpoderes, que os escondem dos demais. Surgem em vários pontos do mundo, mas destinados a convergir numa batalha épica entre o bem e o mal. Esta convergência é vista como evolução natural da humanidade por uns, aberração genética por outros, e mesmo como um meio de perpetuar a fome pela sabedoria, como no caso de Sylar. Sylar era o vilão, protagonizado por Zachary Quinto, provavelmente a figura nuclear daquilo que tornou Heroes um fenómeno mundial.

A profecia central a este primeiro volume (“Save the cheerleader, save the world”, que se tornou num lema global) tem o seu clímax na batalha final entre Peter Petrelli e Sylar, um herói, outro vilão, ambos com a capacidade de absorver as habilidades especiais de outros humanos evoluídos. Sylar rebenta em energia nuclear, cabendo a Nathan e Peter sacrificarem-se para salvar o mundo. Este confronto resolveu-se de uma forma quase anti-climática, com a maior parte das personagens esquecida nos cantos sem razão. Foi talvez o primeiro sinal de que se calhar Kring não tinha a competência ou os meios necessários para contar esta história em condições.

VOLUME 2: GENERATIONS

414151

O segundo volume, saído em 2007, foi truncado de 24 episódios para 11, devido à greve de guionistas que afetou muitas outras séries na altura. Tal arruinou de certa forma a estrutura da temporada, mas também acabou por esmiuçar o enredo até só restar o somente necessário para contar uma boa história. E que história.

Após o confronto do tomo anterior, Hiro viaja para o Japão feudal de 1671 para encontrar o seu herói de infância, Takezo Kensei. Mas em vez de encontrar um veterano inveterado, descobre apenas um britânico mariconço. De nome Adam Monroe, possuí a mesma capacidade regenerativa de Claire. Acaba por ser Hiro a ensiná-lo como ser um herói, criando de certa forma um paradoxo temporal, que resulta graças à sua importância emocional para o crescimento de ambas as personagens. Então, Adam trai Hiro.

No presente, Nathan e Peter sobreviveram, mas este ficou com uma amnésia debilitante. O resto dos heróis também sofre após salvar a Terra: Claire é obrigada a refazer a sua vida na Califórnia, o telepático Matt Parkman vive divorciado, e uma visão do futuro prevê um mundo destruído por uma doença catastrófica: o vírus Shanti. Conhecemos novas personagens com novos poderes, ao mesmo tempo que descobrimos que os pais das personagens principais foram os criadores d’A Companhia, com intenções benevolentes que acabaram por ser corrompidas.

Após a traição de Adam, voltamos ao presente. O twist: Adam junta-se à Companhia. Esta dinâmica antagónica fundamentou os desvios narrativos das outras personagens, culminando num confronto épico entre Adam e Hiro, aprendiz e mestre, mestre e aprendiz. No geral, a segunda temporada alcançou um clímax mais poderoso que o do volume anterior, devido ao seu foco no desenvolvimento das personagens e das suas relações.

Adam é enterrado vivo para toda a eternidade, e o vírus Shanti é neutralizado. Motivado por estes acontecimentos, Nathan, que se candidata à presidência dos EUA, tenta expor A Companhia e a existência de superheróis, apenas para ser baleado durante o seu discurso. Cliffhanger.

VOLUME 3: VILLAINS

1231412

Villains inicia de imediato com o seu calcanhar de Aquiles: é revelado que a tentativa de assassinato de Nathan foi perpetrada por uma versão futura do seu irmão Peter. Esta necessidade de complicar as linhas temporais viria a retirar qualquer ímpeto dramático ao enredo, ao mesmo tempo que perpetuava a existência de personagens que já não tinham mais nada para dar.

Nathan, por exemplo, sobrevive pela segunda vez a um clímax violento. Não há necessidade nenhuma para a sua existência na história, mas por alguma razão Kring tinha dificuldade em se desapegar dos atores e das suas personagens, para o detrimento da narrativa. Um dos poucos heróis principais mortos na temporada anterior, Nikki Sanders, retorna de certa forma na figura de Tracy Strauss, sua irmã gémea que introduz um plot de manipulação genética circinal e desnecessário.

Sylar também retorna em Villains, como um elemento de caos aleatório para destabilizar a relativa calma suspensa da história. Ao longo do terceiro volume, Sylar é humanizado pela sua relação com Angela Petrelli, mãe de Peter e Nathan, enquanto estes são demonizados pelas suas ações. Kring inverte os papéis das personagens com a intenção de encontrar um ângulo mais cativante para as suas interações, mas acaba por perverter aquilo que as tornou interessantes em primeiro lugar.

Personagens como Claire e Hiro encontram-se em peripécias melodramáticas que escapam ao enredo principal, demasiado saltitante para fazer algum sentido. Assim, Heroes transformou-se numa confusão incoerente de emoções e ações desprovidas de interesse. Sylar passou de vilão para herói para anti-herói para vilão num turbilhão de episódios confusos, ao passo que Noah, um ex-vilão redimido graças ao amor pela sua filha, volta a cair para um lado mais vilanesco sem justificação.

A certo ponto, a energia jovial de Heroes tornou-se numa montanha operática quase de novela, despojada de sentido de humor. Custava ligar a televisão, custava perder tempo no labirinto cáustico da narrativa. Villains foi uma terrível temporada de TV, absolutamente inconsequente para o que se seguiu. Espero que Kring tenha olhado para o que não resultou aqui, de modo a não o repetir em Heroes Reborn.

Voltamos amanhã com a parte II.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s