O Portugal Desolado d’As 1001 Noites

O segundo volume do mangum opus de Miguel Gomes, intitulado O Desolado, rende-se ao tom derrotado do conto anterior, sem esquecer a sátira despretensiosa que o singularizou. O realizador – ainda fugido por sofrer de vertigens – retorna ao Portugal em crise, esquecendo as tesões da troika e o sofrimento dos desempregados para dar a vez (e a voz) ao Homem lusitano.

Assassinos do interior, juízas progressivas e junkies libertinos são unidos pela dor de existir numa realidade que prima por os alienar a todo o momento.

Estes são os desolados de Miguel Gomes.

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Logo nos primeiros momentos somos apresentados ao deserto árido do Interior português: ainda que dito de um modo figurativo, a câmara mostra-nos algo bastante literal. Esta esterilidade medonha é personificada na figura de Simão Sem Tripas, o primo ficcional do bastante real Manuel “Palito”, homicida que andou fugido das autoridades durante 34 dias. Simão caminha os montes de espingarda na mão, esquelético e silencioso, sonhando com bacanais surrealistas. Matou a sua sogra, acto que o filme não julga, desligado que está de uma perspetiva moral.

Simão é um assassino. Esta verdade torna-se dogmática, mas não é o essencial da história, que apesar das suas raízes na realidade, opta por enveredar por caminhos menos concretos. É que Simão, para além de criminoso, também tem poderes mágicos, ou pelo menos uma forma de teletransporte que o permite, aqui, escapar à polícia. O dissolver do seu corpo contra a paisagem do interior é quase apocalíptico: estará este homem a realmente a fugir, ou a desaparecer deste plano de existência?

De facto, no fim da história, quando é finalmente capturado, Simão torna-se numa personagem mitológica, imortalizado pelos cânticos dos populares. “Simão, tu és o nosso herói”, lêem os cartazes, esquecidos que estão do vil acto que o homem cometeu. Fugir às autoridades é uma ação nobre em Portugal, uma extensão da popular atitude fuck the police. Momento emblemático de um mundo virado do avesso.

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Apesar da genialidade minimalista desta primeira aventura, é na segunda história que o filme (e a trilogia) encontra o seu apogeu. Denominado “As lágrimas da Juíza”, o conto é a âncora emocional d’As 1001 Noites, funcionando quase como o prato principal de uma épica jantarada. Desenrola-se numa única cena, em que o Homem lusitano é desconstruído aos poucos e poucos, como indivíduo e como nação, até não restar nada mais que um espetro culpado.

Porque, ao fim e ao cabo, somos todos culpados. A titular Juíza (*) procura o desfecho do caso que tem nas mãos, mas à medida que o investiga, a verdade é desfiada num infindável novelo de crimes insondáveis. O que parecia simples de resolver regride para uma encruzilhada de ditos, e ditos por não ditos exclamados da boca de uma miríade de personagens tão intrinsecamente portuguesas que até dói. Caretos, vacas que falam, detetores de mentira em forma humana (de machete em punho) e até mesmo génios supernaturais se tornam arguidos e, no fim, culpados.

Mas culpados de quê?

(*) Luísa Cruz protagoniza Juíza, num papel que lá fora seria galardoado a torto e a direito, digno das mais douradas estatuetas. Verdade seja dita, este segundo volume tem grandes papéis para grandes atores, desde João Pedro Bérnard a Margarida Carpinteiro a Gonçalo Waddington, passando pela belíssima Joana de Verona, todos são bem servidos pelo argumento de Gomes & co., e todos trabalham de forma exemplar. Até Chico Chapas, um não ator, usufrui da realização audaz do cineasta português.

Ao contrário da desflorada filha da juíza, nós portugueses sabemos bem o que é perder a virgindade. Ou a inocência de uma vida pacata, isto é. Somos fodidos e bem fodidos e continuamos a caminhar para lá de vendas nos olhos, corrompidos até ao âmago pela merda que nos é servida. Sabemos insultar Sócrates e Coelhos do conforto das nossas casas, mas continuamos a chorar para as telenovelas que nos ocupam as mentes. Somos todos culpados.

O terceiro segmento de O Desolado fecha o volume com uma elegância sofrida. Percebemos, assim, a linearidade deste segundo tomo, que nos apresenta um criminoso em fuga, então capturado, e depois nos transporta para um julgamento, com a eventual morte de Dixie a servir de stand-in para a resiliência do povo português. Andamos sempre de mão em mão sem nunca saber bem de qual comer.

Neste caso, vão comer da mão d’As 1001 Noites. É um filme que precisa de público, nem que seja para perpetuar a sua presença na mente esquecida dos portugueses. Senão, pode ser que se lembrem dele quando vencer os Oscars em 2016.

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