A incompreensão d’O Rio Perdido

O Rio Perdido é um filme-experiência (*). Os seus tons vibrantes chocam com o ar pós-apocalíptico de uma Detroit abandonada, de casas arruinadas e ruas desertas. Neste debut na realização do adónis Ryan Gosling, o sonho americano foi destruído pela crise económica, quebrado em cacos infinitos e atirados ao vento. A cidade é um símbolo decadente da alma humana, dos protagonistas da história que sobrevivem à deriva num mundo sem rumo. Em O Rio Perdido não há futuro, e o passado é um fantasma assustador da podridão do presente.

Christina Hendricks protagoniza Billy, uma mãe solteira de dois filhos, Franky e Bones (Ian de Caestecker, a.k.a. Fitz de Agents of S.H.I.E.L.D). Sem emprego e sem dinheiro, é arrastada para o submundo criminal de Detroit, ao mesmo tempo que Bones descobre uma cidade submergida e amaldiçoada.

(*) Relegado para estatuto de culto imediato, sem público nos dias que correm. Não se recomenda ao espetador comum, habituado a narrativas mais tradicionais, mas também não tem encontrado colo no paladar refinado da maior parte dos cinéfilos. Existe num limbo transitório, em busca de uma apreciação que só chegará no futuro.

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Aqui, Gosling surripia a atmosfera pesada e arrastada dos filmes de Nicolas Winding Refn, com quem trabalhou em Drive (2011) e Only God Forgives (2013). Também encontramos o surrealismo febril de David Lynch em alguns cantos, de braço dado com o clima nauseabundo de Gaspar Noé e Harmony Korine – a quem rouba o diretor de fotografia Benoît Debie. As luzes néon coloridas de Debie estão presentes em todo o lado, assim como o seu olho para enquadramentos off-kilter, tornando O Rio Perdido numa deslumbrante experiência visual.

Em boa verdade, este olho para o eye-candy perde-se na incoerência amadora da narrativa, que tenta sem muito sucesso convergir dois enredos distintos numa parábola de mensagem anti-consumista. A descida de Billy para o “ventre da besta” detroitiano representa o extremo profissional de uma mãe espremida até à sua última moeda. Por outro lado, a aventura feérica de Bones no titular rio perdido procura o escape forçado da realidade, que a psique humana muitas vezes não permite.

A família nuclear americana é, assim, disfuncional. Não há pai, e a figura paterna é diabolizada pelos vilões masculinos da trama. Dave (Ben Mendehlson) prostitui Billy sem escrúpulos, e Bully (Matt Smith) ameaça desgraçar ainda mais a situação familiar de Bones.

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Embora tematicamente rica, a trama desenrola-se aos trambolhões, agarrada como está a um argumento que não passa de um esqueleto mal formado. Nota-se que Gosling tentou morder mais do que aquilo que consegue mastigar, o que certamente contribuiu para a resma de críticas antipáticas que o filme recebeu aquando da sua estreia em Cannes. O facto de ser um ator bonito de Hollywood não ajudou; a crítica está farta deste tipo de privilegiados com demasiado dinheiro nos bolsos.

Mas a estreia de Gosling não é nenhum cash-grab de proporções gritantes. Pelo contrário: o filme é a expressão de um artista com personalidade, ainda que por enquanto esta seja uma colagem de outras vozes mais sonantes.

Apesar disso, o realizador não se coibiu de reunir um sem número de atores talentosos e outros técnicos brilhantes que elevam o filme pela sua simples presença. Hendricks e Mendehlson são excelentes, as composições de Johny Jewel (Bronson (2008)) criam um ambiente fantástico, e já se elogiaram os visuais de Debie. Não acho que o capital artístico desta longa-metragem se possa reduzir à inépcia do argumento, como a opinião geral tem feito. É uma atitude errada, que se esquece do meio visual e sonoro que o cinema representa.

Assim, O Rio Perdido é sem dúvida uma confusão pegada de um pastiche / homage, mas é o melhor tipo de confusão possível. Gosling não esconde a sua paixão por este mundo, por estas personagens, e isso traduz-se num conto de fadas sinistro e violentamente adulto. Infeliz filme de culto instantâneo, arrasado criticamente pela presunção analítica de um presente que amanhã já estará ultrapassado.

O passar dos anos vai ser bom para O Rio Perdido.

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