Um Homem Irracional também chora

Os filmes de Woody Allen parecem existir num universo suspenso no tempo. A forma como as suas personagens se vestem, como falam, e até como se relacionam umas com as outras transportam-nos para a era dourada de Hollywood, ou pelo menos o seu equivalente a que Allen perteceu com os seus clássicos Annie Hall (1977) e Manhattan (1979). É como se o realizador tivesse uma gaveta cheia de guiões por produzir escritos há décadas atrás, sem se preocupar em adaptá-los para a era moderna.

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Por vezes, isso traz-nos pérolas como Meia Noite em Paris (2011), cuja estrutura anacronista até permite uma certa liberdade neste aspeto. Mesmo Magia ao Luar (2014), a entrada do ano passado para o cânone do cineasta, tem um certo charme juvenil, de humor care-free que é absolutamente encantador, apesar de algo ultrapassado no seu todo.

E depois temos peculiaridades como Homem Irracional. No filme, um atormentado professor universitário (Joaquin Phoenix) vive numa eterna crise existencial. Nem mesmo Jill (Emma Stone, confortável num papel em que é pouco aproveitada), uma jovem aluna, consegue despertar desejo sexual ou a vontade de viver no professor. Só quando contempla o homicídio de outrem é que encontra o seu propósito.

Antes de mais, deve-se dizer que o filme é lindíssimo: a cinematografia de Darius Khondji (na sua quinta colaboração com Allen) volta a impressionar com os seus tons alaranjados de fim de tarde. A imagem do pôr do sol é uma constante, e como em Magia ao Luar, a nossa dupla de protagonistas encontra-se muitas vezes à beira mar para discutir filosofias da vida, envolvidos numa atmosfera imensamente romântica.

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Não que Homem Irracional seja um romance; acima de tudo é uma macabra comédia negra sarapintada com relações sexuais e pequenos momentos de paixões efémeras. Afinal de contas, Abe Lucas, a personagem de Phoenix, assassina um homem, ação que despoleta todo o arco narrativo do filme. Lucas justifica o homicídio com base nas obras de Fyodor Dostoyevsky, filósofo russo cujo Crime e Castigo serve de inspiração. Sente-se esta influência moral e existencialista não só nos diálogos das personagens mas também na ironia dramática que o desfecho do filme simboliza, quase como o apogeu do clássico provérbio, karma is a bitch.

Apesar deste discurso erudito, o filme não consegue enxutar o facto de que não tem nada de novo para dizer. As ações dos nossos protagonistas parecem desprovidas de emoção, determinadas que estão pelo desenrolar previsível do enredo, demasiado preso ao maniqueísmo do realizador para formar algo com a qualidade mordaz dos seus filmes passados.

De facto, Joaquin Phoenix encarna uma personagem que Woody Allen certamente escreveu para si, mas que é velho demais para representar. Abe Lucas é irreparavelmente misantrópico; um homem que se odeia a si mesmo, alcoólico, que despreza o seu passado e é propenso a discursos arrastados de verbosidade pomposa. Mas Phoenix é fantástico no papel, ainda que ciente da repetição que consigo traz. É simplesmente impossível ficar indiferente àquela bojuda e gloriosa barriga de cerveja.

Infelizmente, Homem Irracional empalidece quando comparado às tangentes mais perversas de obras superiores de Allen, como Crimes e Escapadelas (1989), ou Match Point (2005). Embora estes não carreguem consigo o encanto de Joaquin Phoenix e Emma Stone, são mais coerentes na sua temática, e a patifaria cómica das suas personagens é muito mais apelativa.

No fim, Homem Irracional é Woody Allen em modo automático: charmoso e divertido, mas que meras horas depois se dissolve na cacofonia muito mais vibrante do dia-a-dia.

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