A violência bruta de The Bastard Executioner

The Bastard Executioner demora a arrancar. O episódio piloto de hora e meia delonga-se na apresentação das personagens e do seu titular herói, Wilkin Brattle (protagonizado por Lee Jones, praticamente desconhecido por estas bandas), um ex-soldado tornado labrador que vive na paz da sua casa, a sua mulher grávida de um primogénito. A primeira meia hora é o equivalente a uma aborrecida aula de história: repleta de nomes confusos e repetições narrativas, pontuadas por ordinários clichés que ameaçam o bocejo.

Mas então Wilkin Brattle agarra na sua espada, e o caos começa.

Vísceras voam pelo ar ao mesmo tempo que pescoços são degolados, crânios decepados e perfurados com a precisão de uma violenta lâmina capaz de revoltar o estômago. Kurt Sutter, o criador da série, enche os buracos narrativos com sexo à canzana, violações homossexuais e outros tipos de innunendo muito pouco subtis. Em suma, gore desmesurado e situações campy bem orquestradas. Um deleite.

76878989Infelizmente, a diversão em The Bastard Executioner vem da sua atitude exagerada perante a violência do mundo que estabelece, e não da narrativa ou sequer das personagens. O enredo passa-se no século XIV, durante a rebelião do País de Gales contra o governo inglês de Eduardo II. Esta backdrop histórica concede uma certa liberdade no que toca à brutalidade dos acontecimentos, já que o escopo medieval da série é levado muito a sério pelos realizadores e argumentistas.

De facto, em termos de tom, ela tenta assemelhar-se a um Game of Thrones despojado das suas tangentes mais fantásticas. Em contrapartida, as cenas de ação pedem emprestado a séries como SpartacusVikings, pois são totalmente estilizadas e entregues a um contexto de puro entretenimento que o realismo avassalador de GoT por vezes não permite. As sequências de batalha, em particular, vibram com a cor vermelha do sangue e com a carnificina total da violência de época, constituindo provavelmente o ponto mais forte da série.

Porém, The Bastard Executioner também aprendeu com o mastodonte da HBO a ter um excesso de confiança nos seus twists sanguinários, a maior parte deles envolvendo a morte de personagens principais. É impossível entrar em mais detalhe sem falar de spoilers, portanto fica aqui o aviso.

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*INÍCIO DE SPOILERS*

A morte da Petra, por exemplo, é pura exploração infeliz do corpo feminino. Aqui, a violência incutida às mulheres serve apenas para atribuir um propósito ao herói masculino, eternamente desprovido de personalidade a não ser que a sua companheira morra esventrada. Enfim, aposto que daqui a um par de semanas Brattle já vai estar de galo enfiado noutro galinheiro.

Por outro lado, o assassínio cruel do barão Ventris, o suposto vilão da história, resulta ao subverter as expetativas da audiência. Ventris é estabelecido como o big-bad, a cabeça da hidra que o nosso herói terá que cortar no final da temporada. Apresenta-se com confiança, grunhindo vitupérios e ordenando massacres como quem pede por pequeno-almoço, apenas para ser morto a meio do episódio. O choque é impressionante, e o número de portas narrativas que abre é enorme. A sua morte funciona porque expande o mundo ficcional da série, em vez de perpetuar a misoginia dos seus clichés.

*FIM DE SPOILERS*

A verdade é que o uso excessivo de twists não permite um desenvolvimento aprofundado das personagens, embora tal ainda possa acontecer com o desenrolar da temporada. O problema é este episódio piloto reduzir as figuras heróicas (e até os vilões) em metas narrativas que têm que ser alcançadas, sem o merecerem aos olhos do espetador. Torna-se difícil criar uma relação com a história a ser contada.

Kurt Sutter é mais conhecido por escrever/realizar a série Sons of Anarchy, e continua em The Bastard Executioner a sua exploração do ego masculino. Katey Sagal (a mãe-galinha do bando de motards, Gemma) surge como a “bruxa” Annora, de rabo ao léu e com um sotaque eslavo terrível que só pode ser brincadeira. O sangue, o sexo, a queda para a poesia shakespeariana; tudo indica que quem gostou de SoA vai adorar o seu sucessor medieval.

Agora, quem não ligou aos gangsters sob duas rodas de Jax Teller & Co., certamente não vai encontrar muito para adorar em The Bastard Executioner. Por enquanto, permanece uma perfeitamente competente aventura sword & sandal saída da mente macabra de Sutter, e se a estilização da violência continuar, sempre pode apelar aos fãs do gore imoderado. Se vale a pena para além disso? É esperar para ver.

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