Shyamalan e Depois da Terra (2013)

Depois da Terra não é um filme tão terrível quanto dizem, não é outra tirada amadora como O Último Airbender (2010), ou uma ego trip equivocada à laia de O Acontecimento (2008); mas também não é propriamente bom, ou está sequer na orla do que constituí bom cinema.

Will e Jaden Smith, pai e filho na vida real, representam a dupla de protagonistas Cypher e Kitai Raige, dois astronautas futuristas que se veem presos numa estranha e selvagem Terra, agora desolada por um cataclismo. A sua nave é atingida por uma tempestade de asteróides, que imobiliza Cypher no cockpit. Kitai é então incumbido com a missão de estabelecer contacto com a base, ao mesmo tempo que se reconcilia com o seu pai ausente.

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Algo que Depois da Terra estabelece imediatamente é o laço emocional (ou a falta dele) entre Kitai e Cypher. São assombrados por uma morte no passado de ambos, que afastou Cypher da sua família e o forçou concentrar-se na sua profissão. É importante ter um elemento que permita ao espetador relacionar-se com as personagens, e após uma série de hediondas derrotas, Shyamalan parece ter-se apercebido disso.

Para nós, como audiência, é muito mais entusiasmante deixarmo-nos absorver por uma narrativa com pessoas relacionáveis do que uma com marionetas quadradas sem propósito algum na história a ser contada. Depois da Terra sucede neste aspecto, muito graças ao papel de Will Smith, um ator muitas vezes desconsiderado como lixo mainstream, mas que aqui prova o seu star power com empenho.

Mesmo assim, o filme não passa de um soporífero pesado, que nem dardo de elefante para um domingo à tarde. Ou nem para isso, já que os 100 minutos de filme desenvolvem-se num ritmo deficiente centrado na fuça inexperiente de Jaden Smith. O “ator” trabalha melhor que o miúdo careca de O Úlitmo Airbender, mas não deixa de ser uma escolha terrível para o papel, fruto de nepotismo mal disfarçado.

De qualquer forma, Depois da Terra é a obra de um autor cansado das críticas mas resignado à incompetência, descartando a tensão laboriosa de O Sexto Sentido (1999) em prol de beleza blockbuster genérica. As cenas na Terra são inquestionavelmente deslumbrantes: o realizador abre os planos para aproveitar a horizontalidade da tela em paisagens grandiosas e coloridas. Há planos que sugerem o quanto aquele planeta beneficiou com a ausência do Homem, repleto de animais e plantas que sobrevivem desimpedidas no seu habitat natural. Não é nada de novo, mas não deixa de ser apelativo.

Infelizmente, tal não chega para cobrir a ação inexistente do filme, que promete um showdown climático com o alienígena inimigo da trama, mas que o entrega de bandeja ao espetador sem preocupação cinemática ou interesse estético. Não chega a entreter sequer: Kitai combate o alien com umas acrobacias polidas e uma coreografia impecável, mas que não tem um antecedente narrativo nem oferece uma descarga emocional.

Assim, Depois da Terra não é mais que Shyamalan a assinar um ordenado, destruído do seu primor artístico a favor de um estilo comercial que podia pertencer a um qualquer cineasta de Hollywood cujo nome nunca vimos a aprender. É um filme marginalmente melhor que os que o antecederam, mas sem nenhuma da personalidade que caracterizou as melhores obras do realizador.

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