Não há zombies em Fear the Walking Dead (ainda)

Sem confusões: Fear the Walking Dead, apesar de partilhar 50% do nome, não é The Walking Dead, nem de longe. As personagens são diferentes, a cidade é diferente, a cinematografia é diferente. Os zombies são iguais. No entanto, o mais importante de tudo é que ao passo que Rick acordou semanas após o apocalipse morto-vivo, aqui a disfuncional família Clark vive num mundo ainda civilizado. Esta distinção temporal é aquilo em que a nova série se foca, e a mitologia criada à sua volta o mais intrigante aspeto.

Por exemplo: Madison Clark (é tão bom ver a Kim Dickens a ser bem aproveitada!), a matriarca no nonsense da dita família, não sabe como lidar com zombies. Esqueçam lá o facto dessa palavra não existir no vocabulário da série; não há ninguém que tenha o reflexo instintivo de fugir de rotos coxeantes, ou de lhes espetar um balázio na testa.

Em Fear the Walking Dead, as pessoas ainda tentam aplacar os virulentos walkers com um ‘está tudo bem?’, e só depois é que fogem com o rabinho entre as pernas. Tão inocentes.

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A inversão das expectativas é o que funciona melhor neste episódio piloto, ainda que tenhamos que sofrer com paroladas como aquele build-up falso nas costas do diretor da escola, que está só a avaliar professores. Nós, a audiência, estamos habituados a ver os zombies cair que nem moscas no verão em The Walking Dead, pelo que o momento em que Nick se debate, com dificuldade hercúlea, para aniquilar o seu compincha morto-vivo é estranhamente intenso.

É, também, um grande dedo do meio a esses mesmos espetadores que veem Walking Dead no título e esperam caos zombie por todos os lados e só o tem por pouco mais de 5 minutos (num episódio de uma hora). É que ninguém a fazer zapping olharia duas vezes para Fear the Walking Dead, com o seu passo de caracol, de cores desbotadas (quão melhor seria se a palete de cores se fosse degradando com o adensar do apocalipse?) e infinitos dramas familiares.

Mas esse é, sem dúvida, o apelo desta nova série no mundo de Rick & Co. Ver como é que as instituições lidam com o colapso económico, como é que pequenas famílias são devoradas pelos monstros à sua porta, ou assistir às grandes mobilizações militares que certamente existiram nos primeiros dias só para serem derrotadas pela imparável doença. Não estou à espera de ter mais gore e sequências de ação do que em The Walking Dead; aqui o terror vai ter que passar pelo psicológico, lentamente construído mas com um clímax arrebatador.

De referir também o elenco diverso: o único protagonista branco e macho desta série é Nick, e apesar de ser através dos olhos dele que vemos o desenrolar do fim do mundo, as personagens que o acompanham são tão ou mais interessantes que ele. Madison, em particular, é fantástica: certamente vai irritar algumas personalidades mais conservadoras (como aquele polícia no hospital que pergunta ao seu marido se é ela que veste as calças na relação), mas é difícil não sentir empatia por aquela mãe determinada a não perder o seu filho para as drogas.

No geral, este episódio piloto de Fear the Walking Dead (estreado pela AMC, num excelente golpe de marketing agora que se empurra cada vez mais para o território português) mantém-se pela competência intrigante. Não é nada de novo, não surpreende, o elenco, ainda que variado, não revela muito interesse, mas o seu todo promete. Tem mais cinco episódios este ano, e esperemos que esses cinco episódios brilhem. Para o ano há mais quinze confirmados.

2 responses to “Não há zombies em Fear the Walking Dead (ainda)

  1. Ainda não vi com medo de adormecer no piloto tal e qual como aconteceu com The Walking Dead. As expectativas eram tão altas, todos a adorar e depois apareço eu, a demorar imenso tempo a entrar na série com algumas sestas pelo meio… e só consegui (e continuarei a conseguir com os episódios futuros) quando decidi focar-me em personagens que realmente suscitavam o meu interesse (all hail queen Carol and her archer, Daryl). Talvez este spin-off seja mais o meu género. Quiçá, irei ver… um dia… 😉

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