Telenovelas e a cultura de spoilers em Portugal

A forma como consumimos conteúdo audiovisual está em mutação. Nós, jovens, mal olhamos para a televisão: acordamos, jantamos, adormecemos a olhar para o ecrã do computador; a sacar algo da net em stream ou por torrent. Vemos séries em viagens de comboio, através de portáteis ou de ecrãs cada vez mais pequenos e menos detalhados, como tablets ou ainda smart phones. O tempo é tão pouco e a vontade é tanta que não nos importamos de perder pormenores visuais, como o último respingo de sangue numa qualquer morte de Game of Thrones, desde que percebamos quem é que, efetivamente, esticou o pernil.

De certo modo, é um escarnecer infeliz do trabalho dos artistas (quer visuais, quer sonoros) por detrás destes episódios, que cada vez mais são feitos para serem visualizados em ecrãs grandes, e até em telas de cinema. Mas o povo não se importa com isso. E não deve ser julgado: o nosso tempo nesta Terra é demasiado precioso para perder as aventuras das nossas personagens favoritas porque estamos presos a um qualquer código moral.

Idealmente, estaríamos a ver o pescoço carnudo de Sean Bean a ser destroçado a mando do Rei Canalha no quente da nossa sala, mas se só temos tempo para o ver no malabarismo rodoviário de um transporte público, que havemos de fazer?

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Ups, spoiler. Não sei há alguém a ler isto que ainda não tenha visto a primeira temporada de Game of Thrones (lançada em 2011, não esquecer), e de alguma forma evadido o sem número de artigos chocantes deste lado da internet, mas se sim, peço desculpa. Peço-a sem qualquer sarcasmo macabro, mas é um mal necessário que o propósito deste artigo me obriga a cometer.

Agora pensem em Raúl Falcão, a personagem de Alfredo Brito, que vai morrer num dos próximos episódios da novela da TVI A Única Mulher. Ups, spoiler outra vez. Ou é? Como é eu que sei disto, se o episódio não estreou ainda onde quer que seja? O meu poder precognitivo (*) vem das revistas cor-de-rosa portuguesas, assim como daqueles recantos obscuros da internet que divulgam os resumos disponibilizados pela própria TVI.

É uma dicotomia engraçada: ao passo que, para as gerações mais novas, um spoiler pode estragar por completo uma série, grande parte da demografia que assiste a novelas procura avidamente por essas revelações da narrativa. Param nas filas do supermercado para ler o plot dos episódios que ainda não viram, mas sabem que vão assistir na mesma; o conhecimento colora a sua perspetiva dos acontecimentos (**) mas, paradoxalmente, contribui para o seu entusiasmo. É inevitável: até os canais publicitam estes acontecimentos com teasers, impensáveis que seriam para uma série como The Walking Dead.

(*) Na verdade, no que toca a novelas, o meu maior poder precognitivo é a minha mãe.

(**) As novelas têm uma fórmula e estrutura muito própria que não se preocupa tanto com o aprofundamento das personagens, ou do próprio enredo. Em vez disso, estabelecem arquétipos superficiais facilmente reconhecíveis ao bruto espetador, idem para a narrativa, e altera-os só o suficiente para conceder a ilusão de que as coisas estão a ir a algum lado. Um episódio todos os dias vs um episódio por semana obriga a uma cadência de caracol na forma como a história é contada – o eterno caso de comparar maçãs com laranjas -, pelo que é só normal a audiência mais velha procurar respostas a perguntas que tão cedo não chegam.

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Agora questiono-me: como é que esta cultura (a juventude hiper-sensível à mais diminuta informação relacionada com o que estão a ver) vai influenciar a futura produção nacional? Ou daqui a uns anos vai tudo regredir do tipo de conteúdo que consome, e aninhar com alento no sofá, resignado?

A forma como lidamos com spoilers é só uma pequena fração da equação que se tem alterado radicalmente nos últimos anos. Já referi os diferentes meios em que assistimos a séries e filmes, mas há que considerar a rapidez vertiginosa com que o fazemos, e o volume colossal de episódios que devoramos todos os dias (para não falar do binge watching). As telenovelas que preenchem as noites portuguesas de canal a canal são uma expressão do que a audiência de hoje quer, mas e a de amanhã? Aquela que está a crescer com a violência adulta de Spartacus, com a exploração da moralidade de Breaking Bad, ou com a sexualidade sem tabus de Game of Thrones (***)? Vai continuar a ver novelas?

Já Marshall McLuhan dizia: the medium is the message. Nós somos o aquilo que vemos; se não virmos nada, nada conhecemos, não o somos. O “agora” dissolve-se. Se as ferramentas de comunicação se alteram (ler: internet > televisão), muda-se a linguagem, muda-se a forma como o nosso cérebro processa informação. E se este de algum modo regredir para aquilo que as telenovelas oferecem, vamos continuar a adular um conteúdo light, como a coca-cola, que não é aquilo que realmente queremos.

A ficção que os principais canais públicos me oferecem (e friso que estou a falar do conteúdo ficcional) não é aquela que eu quero, e até ser, não vão ter o meu share da audiência – que é estupidamente insignificante. A questão é quantos mais como eu existem, e se existem, e se vão continuar a crescer, e a crescer, até se operar uma mudança.

Precisamos de mais conteúdo desafiante, que não sirva apenas para pestanejar enquanto o ferro de engomar está ligado. Esse conteúdo existe em massa (e não só nos Estados Unidos, que uso por ser o mais respeitável exemplo), mas não cá. Quando vamos começar a pedir por ele?

(***) Sem referir os meios ilegais utilizados para tal. Com a vinda da Netflix e da HBO a Portugal as coisas podem mudar, mas não há como escapar a necessidade de conteúdo on-demand para o cada vez mais ávido público português. Com as coisas estão, nem os canais públicos nem os por cabo vão conseguir satisfazer, legalmente, as necessidades da sua audiência.

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3 responses to “Telenovelas e a cultura de spoilers em Portugal

  1. Um aparte que acabei de descobrir e lembrei-me deste post. Afinal a HBO não vai ter canal próprio. Segundo o facebook dos canais TVCine fez uma parceria com o TVSéries para transmitir mais material.

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    • Sim, li isso, ironia das ironias, assim que acabei o post. Pelo que percebi vai passar conteúdo antigo e começar a estrear todos os novos programas (como a AMC está a começar a fazer), é HBO em tudo menos nome.

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