TV & Cinema – O Universo Cinemático II

Apesar da interconectividade fílmica dos Universos Cinemáticos (*) em voga na 7ª arte contemporânea, a verdade é que estas vertentes do cinema tendem a ultrapassar o meio para o qual foram fabricados, expandindo-se em outras formas de arte. Tal é particularmente curioso, não só porque muitos deles devem a vida aos seus doppelgängers antepassados da banda desenhada, mas também pelas idiossincrasias relativas a cada meio audiovisual.

Como vimos no artigo anterior, muitos dos atuais cineastas por detrás de hits como Os Vingadores (2012) ou Capitão América: O Soldado de Inverno (2014) tiveram a sua génese profissional nas séries televisivas. Agora que a Marvel se expande para o pequeno ecrã, nomes do cinema como John Ridley (argumentista de 12 Anos Escravo (2014)) e Melissa Rosenberg (que também começou a carreira a escrever para TV, mas que se catapultou para o estrelato com Crepúsculo (2008)) surgem associados às suas séries, num turbilhão de transmedialismo infinitamente provocante.

(*) O foco deste capítulo na nossa análise do cinema contemporâneo americano. Podem encontrar os restantes artigos aqui.

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De facto, os Estúdios Marvel apostam nestes artistas porque estão habituados a uma forma de contar histórias diferente: serializada, semanal, com longos arcos narrativos e de personagens, onde tudo não pode ficar resolvido após 40 minutos ou hora e meia. São, assim, os mais indicados para se integrarem num universo cinemático em que cada filme conta uma história individual, mas ao mesmo tempo incluída numa narrativa gigante e cada vez mais expansiva.

Tão expansiva, que em 2013 foi lançada no canal americano ABC uma série intitulada Agents of S.H.I.E.LD., que explora as aventuras mais terráqueas do homónimo grupo de agentes. Esta série quebra a norma dos grandes títulos de cinema e insere-se ela também no universo cinemático, contando com a participação de grandes caras como Samuel L. Jackson, conhecido por protagonizar a personagem de Nick Fury no universo Marvel.

Para além da série da ABC, a Marvel e a Netflix estão no meio de uma colossal co-produção de inúmeras séries que se inserem no MCU: Demolidor acabou a sua primeira temporada há uns meses, com a segunda a caminho, Jessica Jones está para chegar no final do ano e Luke Cage promete aterrar em 2016. O sucesso, a ambição e a visão do estúdio norte-americano é ímpar: nunca aconteceu nada com tamanha dimensão e interação entre os vários meios audiovisuais.

O sucesso deste modelo está a ser de tal forma influente no sistema de estúdios de Hollywood, que muitos deles estão a reapropriar os seus filmes em produção para integrarem eles também num “universo partilhado de filmes”. A Warner Bros., por exemplo, já fez saber a sua chancela interminável de filmes baseados nas bandas desenhadas da DC Comics até pelo menos 2020, com Suicide Squad e Batman v Superman: Dawn of Justice no ano que vem.

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Do mesmo modo, a Universal Pictures tem em mente tornar as suas propriedades de monstros como o Frankenstein, o Drácula e a Múmia numa equipa de heróis de ação, lançando filmes de monstros individuais e subsequentemente um em que se inclua a participação de todos os monstros, como a Marvel fez com os seus super-heróis em 2012.

O mais interessante nesta proclamação é que os filmes da Universal, ao contrário da moda corrente em Hollywood, não vão ter apenas um ou dois guionistas a trabalhar para cada filme; em vez disso contrataram uma série de argumentistas conhecidos pelo seu trabalho em séries televisivas para escreverem, em conjunto, todos os filmes do seu mega-franchise.

Isto estabelece um novo paradigma que é em todos os sentidos semelhante ao usado para a criação de episódios televisivos: apesar de cada um ser creditado a um argumentista diferente (que se inclui na previamente mencionada “writer’s room”), a história dessa temporada é atribuída a toda uma equipa, liderada por um showrunner – pensem Vince Gilligan em Breaking Bad. Algo semelhante se passa com os filmes da Marvel, que partilham todos o mesmo produtor: Kevin Feige. Para além dos 12 filmes que já produziu está contratado para realizar os próximos 10 do universo cinemático, trabalhando basicamente como o dito showrunner de uma série de TV.

Assim, Hollywood funciona cada vez mais como as pequenas equipas de produção televisivas: contrata realizadores pouco conhecidos, ainda que experientes, para filmes multi-milionários, cujo argumento é escrito por meia dúzia de pessoas ao contrário de apenas uma Aqui, os dois meios estão em perfeita interseção, mas a influência é mais unidimensional: a televisão dominou o cinema. Vamos às grandes salas para ver episódios de duas horas, que continuarão no ano seguinte, ou dois anos depois. É algo novo e, para algumas pessoas, extremamente entusiasmante.

Mas será que é tão unidimensional assim, esta influência? Ou terá o cinema também um papel nesta revolução televisiva?

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