Lugares Escuros e viva Satã

Lugares Escuros é a segunda adaptação cinematográfica dos livros de Gillian Flynn, autora de Gone Girl e guionista do respetivo filme, Em Parte Incerta. Este teve uma recepção calorosa, embora polarizante (como seria de esperar da narrativa escandalosa), e ainda fez uns bons tostões graças à prestação fabulosa de Rosamund Pike, assim como ao trabalho meticuloso de David Fincher na realização. Aqui, a narrativa e as personagens serviam-se numa relação simbiótica que envolvia a audiência nos inúmeros twists da trama.

Ora, Lugares Escuros prefere a narrativa às personagens, e nem assim se safa.

Charlize Theron protagoniza Libby Day, uma trintona que, na infância, assistiu ao assassínio da sua mãe e irmãs pelo irmão mais velho Ben. Este é preso ao admitir a responsabilidade dos crimes, sendo-lhe associadas outras transgressões como violações sexuais e práticas satânicas. No presente, Libby Day é convidada a participar numa espécie de convenção de entusiastas de investigações criminais, orquestrada pelo irónico Kill Club, que tenta pôr fim a casos que considera mal resolvidos. Um desses casos é o do assassínio da família de Libby.

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O filme começa nos anos 80, na noite do fatídico homicídio, com uma câmara subjetiva do ponto de vista de Libby em criança. As cores são substituídas por um granuloso preto e branco, que estabelece uma atmosfera aterrorizante e violenta. A estética quase VHS permite uma aproximação à tensão evocada pela narrativa que os enquadramentos de outro modo não concedem, e é nestas sequências que realmente encontramos o thriller que Lugares Escuros promete ser, mas que nunca cumpre.

De facto, os flashbacks aos anos 80 constituem a melhor parte da história, e eu quase que diria que a adaptação se devia ter cingido somente a esta época temporal. Christina Hendricks, como matriarca da família Day, é uma figura imponente que cuida sozinha dos seus cinco filhos, numa constante batalha contra a opressão dos conglomerados económicos que ameaçam comprar a sua quinta e a tirania esporádica do seu ex-marido. Este é o núcleo emocional do filme, e a prestação de Hendricks é tão bem conseguida que tudo parece oco em comparação.

No meio deste drama familiar encontramos personagens genuinamente caricatas, como o índio metaleiro que gosta de adorar satã nos tempos livres, ou a namorada grávida de Ben (Chloe Grace Moretz), que para além de fumadora compulsiva, gosta de malhar uns charros de vez em quando. Há mais dinâmica narrativa nos flashbacks do que na demanda pela verdade de Libby no presente.

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Até o próprio enredo parece colado a cuspe: o dito Kill Club aparece só para despertar em Libby o bichinho da suspeita, sendo posteriormente representado apenas por Lyle Wirth (Nicholas Hoult, na sua segunda colaboração com Charlize este verão), um meia-leca com tendências sociopatas que nunca chegamos a entender ou sequer a conhecer. A sua relação com Libby serve apenas a história, sem aprofundar ou caracterizar ambas as personagens de forma alguma.

A certo ponto, Lugares Escuros parece uma porta giratória de atores (*): nomes são atirados para o ar e sabemos que vão aparecer para dar um surto de energia à moribunda narrativa. Infelizmente, quando o fazem é durante meros segundos, em conversas expositórias sem cuidado com a construção de tensão dramática que caracteriza os melhores thrillers de suspense, a que Lugares Escuros gostaria de pertencer.

(*) O elenco é sólido, mas devo elogiar especialmente a trilha sonora composta pelo músico de trip hop ambiental BT, que realiza a façanha de tornar algumas personagens genuinamente misteriosas apesar da gritante inépcia do enredo.

Para além do seu estilo deambulatório, esta parte do filme também é assombrada por uma das piores narrações do ano. Theron esforça-se por conferir algum carisma à malcriada maria-rapaz que é Libby Day, mas sempre que vira introspetiva na sua voice-over parece aborrecida, como se soubesse que o que está a ler são regurgitações psicológicas sem interesse para ninguém. “I have a meaness in me, real as an organ”, é uma frase que podia soar engraçada ao cuidado da esferográfica cáustica de Gillian Flynn, mas que aqui é só pirosa.

Lugares Escuros é, assim, um pãozinho sem sal de um filme de suspense, com um desenlace desconchavado que ata a narrativa num nó imperfeito; nem satisfaz os menos astutos jogadores de Cluedo.

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4 responses to “Lugares Escuros e viva Satã

  1. Ainda não vi o filme mas li o livro e é bastante bom. Apesar de não ser o meu preferido (“Sharp Objects” e “Gone Girl” são melhores para mim), não sei até que ponto não seria bom haver uma “parceria vitalícia” entre a Gillian Flynn e o David Fincher. É só uma ideia.

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  2. É uma pena que assim seja porque o livro é quase bizarro. A história quando contada pela Gillian Flynn está repleta de ‘twists’ e a tensão que por ali vagueia obriga-te a ler a história sem paragens. Contudo, não é uma adaptação fácil para o cinema e o elenco deixa um bocado a desejar. Ainda assim em DVD talvez dê uma olhadela. Boa crítica já agora. Abraço!

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    • Obrigado! Nunca li o livro, mas sei que a Flynn tem uma voz muito particular, quase satírica, que desapareceu por completo nesta adaptação. Mas aqui se espera que a do Objetos Cortantes seja melhor, se chegar.

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