Mr. Robot e o novo Fight Club

Nós, os que nascemos nos anos ’90 e descobrimos a obra-prima de 1999 do irrepreensível David Fincher anos depois de ser lançada, sentimos uma certa afinidade com a mensagem do filme. A atitude punk de Fight Club fala-nos de uma maneira que não falou aos críticos da altura, confinando o filme a uma cultura underground propícia à disseminação dos seus ideais anti-establishment.

A exploração, e destruição, da masculinidade perpetuada por Tyler Durden durante anos que não teve par, e imortalizou-se ao assaltar a necessidade base de nos sentirmos livres, de nos sentirmos desembaraçados de quaisquer fiozinhos de fantoche governamental.

Mas o que mais impressiona é a presciência de Fight Club, a sua capacidade de criar um conjunto de ferramentas ideológicas que soam mais verdade agora do que nunca. Mr. Robot transporta esta atitude avant-garde para o mundo presente: a suposta aldeia global que a internet permitiu florescer, e a regressão social, económica e humana que consigo acarretou. Traduz o sentimento de que se foda o sistema, de valente dedo do meio apontado às grandes corporações capitalistas, e atinge a mesma corda anarquista que Fight Club tocou há 16 anos atrás.

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Rami Malek, que protagoniza o nosso anti-herói solitário e possivelmente esquizofrénico Elliot Alderson, tem a mesma qualidade off-beat que Edward Norton trouxe ao papel de Jack no filme de David Fincher. Os seus olhos constantemente esbugalhados assustam com a sua ansiedade nervosa; a íris de Malek é particularmente pequena, mas são as subtilezas das suas expressões faciais à volta dos olhos que nos fascinam.

A sua voz narra os acontecimentos de Mr. Robot com um sarcasmo perspicaz, contribuindo para a paranóia geral da série, mas não é uma narração preguiçosa: os seus comentários entrelaçam-se com a história a ser contada para fins humorísticos, ou para aprofundar as personagens à sua volta com a perspetiva volátil do protagonista.

Elliot é um jovem que se sente preso à mania loquaz da sociedade e às suas tendências superficiais. Recusa-se a ficar sentado à espera que as coisas mudem (um sentimento que muita falta faz neste cantinho da Europa); sente-se manipulado pela publicidade que o assalta todos os dias, sente-se enganado pelo governo ditado para o proteger mas que só o fode em todas as posições possíveis.

Elliot é também um hacker, e apesar deste tipo de personagens se terem tornando numa paródia delas próprias, muitas vezes criadas por cotas desfasados da realidade em que vivem, em Mr. Robot é um homem com uma personalidade inabalável, intrigante e altruísta. É uma personagem totalmente realizada, ao contrário das criaturas pseudo-cibernéticas que tantas vezes nos chegam aos ecrãs.

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O seu propósito é acabar com o conglomerado de empresas capitalistas E Corp. Elliot lê e ouve o nome da empresa como Evil Corp, um pormenor que nos faz ver o mundo com os olhos do nosso protagonista, mas que ao mesmo tempo torna a sua perspetiva incerta, enviesada. Os enquadramentos vazios reforçam a sua solidão e possível demência, criando uma aura de inconstância à volta de Elliot que perturba a audiência.

A trilha sonora de Mr. Robot também é algo especial: combina as synths dos filmes neo-noir e cyberpunk dos anos 80, como Blade Runner (1982), à música industrial de bandas como Nine Inch Nails, para arquitetar uma ambiência de tensão incessante. Há silêncio quando silêncio é pedido, mas os momentos coloridos pelas batidas eletrónicas e guitarras dissonantes são sempre os mais memoráveis.

Para o bem ou para o mal, a série é propensa a amplas tangentes filosóficas, de cariz anárquico e anti-capitalista, embora suficientemente empolgantes para cativarem o espetador. Resultam numa série de questões que não trazem nada de novo, e as respostas que oferecem (tentativamente, digamos) também parecem regurgitadas de uma qualquer aula de filosofia de secundário, mas porque é que isso há-de ser um ponto negativo? São bem formuladas, e oferecem um ponto de vista astuto ainda que vago.

Fight Club rebelou-se contra o consumismo da nossa sociedade ocidental, e contra a emasculação do homem. Mr. Robot traz de volta essa vontade de foder o sistema, de gritar sa foda esta merda e corrigir todos os males da sociedade com as nossas próprias mãos.

É uma série tão boa, que nos motiva a levantar a meio do episódio para finalmente fazer algo da vida inútil que muitas vezes sentimos ter nas mãos.

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