Wayward Pines e o complexo de messias

A história repete-se em Wayward Pines: o conceito niilista de que a humanidade não se pode salvar de si mesma é aplicado às três pancadas neste último episódio de uma (mini)série que arrancou da linha de partida em sprint para chegar à meta aos tropeções. Dez episódios repletos de torções narrativos, explosões nonsense e uma aparente imortalidade que nunca é explicada.

Porque, sejamos sinceros, como é que Ben Burke sobreviveu àquela bomba na carrinha? É que ela rebentou-lhe mesmo em cima da fuça, e tanto ele como a namorada sobreviveram com uns simples arranhões (e um inchaço cerebral que não vai a lado nenhum). Ou, então, como é que aquele tipo jovem que se arma em Adam Lanza na esquadra da cidade sobrevive ao tiro no estômago? O gajo acorda cheio de sangue, ferida aberta, e caminha sem qualquer apoio ou fraqueza.

Mas que caralho?

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E sim, aquela cena final que pretende tornar a história cíclica e faux-poética funciona a um nível alegórico, ao perpetuar os ideais megalómanos de David Pilcher (como profetizado pelas suas últimas palavras) num tom derrotista, que retira todo o mérito às ações prévias dos nossos protagonistas. Mas a um nível prático? Não faz sentido nenhum.

A canalha da primeira geração de alguma forma refugia-se dos Abbies, chega ao seu esconderijo secreto sem vítimas e prontos para iniciar uma revolução. Sob a liderança de um idiota homicida com tendências psicopáticas, os jovens foram capazes de aniquilar o resto dos Abbies, colocar todos os adultos do grupo B de volta em criogenia, e reconstruir a cidade em dois/três anos (!!). Olhando para a cara deles nem diria que se conseguiam alimentar em condições, quanto mais funcionar como os bastonários da humanidade.

É este o maior problema de Wayward Pines: se se começa a pensar demasiado na lógica da série, nada faz sentido e a narrativa desaba sob o peso das ações disparatadas das personagens. Aliás, muito do impacto emocional recai em personagens que mal conhecemos ou de quem nunca ouvimos falar sequer: jovens sem-nome da primeira geração, guardas de Pilcher que mudam de lado como quem troca uma camisola. São criadas barreiras artificiais sem necessidade quando o programa podia ter enfatizado as escolhas morais dos protagonistas através do seu confronto.

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Bah. Sinto-me frustrado com este último episódio porque a primeira metade da série estabeleceu um mundo interessante, com personagens memoráveis e uma corrente misteriosa que alimentava a tensão de todas as cenas. O sociopata/amante de gelados Xerife Pope (Terrence Howard) foi um ponto alto, e a coragem de matar personagens de atores como ele e Juliette Lewis nos primeiros episódios conferiu à série um tom de ameaça que desapareceu lá para o meio com as manias tirânicas de Pilcher.

De um ponto de vista analítico, a megalomania religiosa do vilão tem uma estrutura de tragédia grega que, no papel, funciona perfeitamente. David é Deus e Wayward Pines é a sua arca de noé, mas como todos os deuses cansa-se da sua experiência passado uns anos e carrega no fatídico botão de reset. Ele não quer que a humanidade prospere; ele quer reinar sobre ela, ditar os seus costumes e ideias e controlar tudo até ao mais ínfimo pormenor. É material suculento que podia ter sido melhor temperado.

Mas Ethan Burke pode finalmente fazer-se de herói, criando outro ciclo ao proteger vidas inocentes com o detonar de uma bomba em vez de as destruir, como o Easter Bomber na sua vida passada. Matt Dillon, Melissa Leo e Carla Gugino foram os três atores que carregaram o ímpeto emocional da série, e ao devorar cenário sempre que a oportunidade se adivinhava, tornaram  Wayward Pines num retiro divertido de verão.

O facto da série ter um modelo claro do que cumprir (a trilogia original de livros) com um início, meio, e fim, concedeu-lhe uma estrutura propícia a grandes e brutais acontecimentos que seguiam de episódio para episódio, mantendo a tensão em níveis altos e assegurando o interesse dos espetadores.

Mas no final, Wayward Pines tentou fazer muita coisa ao mesmo tempo, com o seu mundo pós-apocalíptico e alegorias divinas a preencher os cantos pulp de ação desinspirada com sucesso mediano. Como peça sazonal de entretenimento é talvez das que melhor se safa, mas como programação com qualidade de tv (mesmo sob a alçada de mera diversão) falha redondamente.

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