The Strain e a miudagem do caos

Não entendo o fascínio que este verão trouxe por crianças creepy. Desde os trapaceiros demoníacos de The Whispers, ao conluio secreto de putos-com-mania de Wayward Pines, e agora as “children of the night” de The Strain, 2015 parece ter acordado que estava na hora de trazer de volta o medo pela canalha e o subsequente acréscimo de infanticídio.

Ainda bem, então, que tem sido largamente bem sucedido com esta empreitada. Os dois primeiros episódios de The Strain, em particular, aterrorizam pelo quão bem encaixam a narrativa paralela das crianças-vampiro no seu plot principal. É arrepiante a forma como se elevam daquela caixa de terra e se debruçam sobre os membros dianteiros; criaturas completamente selvagens, despidas de qualquer inocência humana. A maquilhagem horripilante à volta dos seus olhos torna-os cadavéricos, surreais. Nada bom vai sair dali.

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Porque se há algo que sobressai nesta série de verão apocalíptica são os efeitos práticos e a make-up dos ditos vampiros. É certo que não estão ao nível decrépito dos zombies de The Walking Dead, até porque o Greg Nicotero tem mais que fazer, mas a sua palidez opaca aliada àquele piscar de olhos réptil é tão enojante quanto aterradora.

Mas esta preocupação estética vai para além da aparências das personagens: a cinematografia em The Strain é belíssima, colorida pelos tons azuis, dourados e verdes que Guillermo del Toro emprestou à série quando realizou o primeiro episódio. O cineasta mexicano volta no prólogo desta temporada, e apesar de não ser fã dos flashbacks (*), a narrativa flui de uma maneira natural e cristalina nesta sequência que os restantes minutos não conseguem replicar.

Porque sempre que a série se esquece que o seu charme está na ação de alta octana contra as sanguessugas antropomórficas, regride para um drama de novela pior que as da TVI. A escolha de Eph voltar a beber, por exemplo, é tão exagerada nas primeiras duas horas que de repente parece não existir mais nada no seu arco pessoal; o que combinado com o seu filho chato como a potassa torna o seu lado do enredo aborrecido.

(*) É que foda-se para os flashbacks. Quebram a tensão da história, preenchem lacunas inexistentes e respondem a perguntas que não são feitas na tentativa de expandir a mitologia de um programa que não precisa dela. Pelo menos não nesta forma atabalhoada que ocupa a duração dos episódios com palha aborrecida, sem peso dramático nenhum. Queremos saber o agora das personagens, a sua demanda para terminar com o vírus sanguinário, não as origens ultrapassadas das inimizades que não recontextualizam de nenhuma forma o que está a acontecer no presente.

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No entanto, tal deficiência é equilibrada pela dupla de protagonistas kickass que é Fet e Dutch (só estes nomes positivamente parolos deixam-me com um sorriso na cara). Kevin Durand diverte-se imenso com a personagem, que apesar de ter diálogos terrivelmente cheesy continua a manter a sua postura de implacável caça-vampiros. O romance incipiente entre estes dois rejeitados sociais (uma hacker e um exterminador) é uma alegria de ver no ecrã, porque balança o tom negro do apocalipse com um rasgo de esperança oh-tão-humana.

Este tipo de ligações vem da inspiração em filmes de série-B que The Strain ostenta na sua manga despreocupada. O gore desmesurado e as piadas secas one-liners são tradicionais deste tipo de cinema, e conferem uma personalidade única à série.

As cenas de ação também melhoraram consideravelmente esta temporada, optando por um estilo quase low-budget que joga com a iluminação do set e os planos de ponto de vista para empurrarem o espetador para o meio da carnificina sem dó. Cabeças voam e corpos explodem com uma pinta artística que é muito bem-vinda.

Se os próximos episódios redobrarem neste espírito de série-B e cansarem das extenuantes flashbacksThe Strain candidata-se a ser o programa mais divertido do verão. Não o melhor, porque o argumento continua a ser enfadonho e as performances do elenco nem sempre são as mais acertadas, mas aquele que mais seduz uma tarde de domingo bem passada.

E esperem só até o wrestler mexicano mascarado aparecer.

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