Ant-Man e o drama familiar

Seria fácil dizer que Ant-Man (ou Homem-Formiga, em português) é um filme muito diferente ao que os estúdios Marvel nos têm acostumado, mas a verdade é que tal só se verifica na superfície. Enquanto colossos como Capitão América – O Soldado de Inverno (2014) e Guardiões da Galáxia (2014) reinventaram, de certo modo, o tipo de histórias que a Marvel podia contar (*), Ant-Man encontra-se na linha ténue entre a comédia de família e a narrativa de heist/ação à la trilogia Ocean’s do Soderbergh.

Não há nenhuma reinvenção científica da roda, ou um paralelismo à tecnofobia oriunda de um qualquer Snowden trapaceiro; Ant-Man já passou por ser um filme arriscado, mas neste produto final é tudo menos isso.

(*) 2014 foi um ano bombástico para a Marvel. As aventuras super-heróicas de outrora sumiram para dar a vez a tiradas arriscadas que passaram pela espionagem e pela ópera espacial, reunindo um bando de personagens novas e velhas bem-formadas e carismáticas que ofereceram das melhores horas passadas em frente a um ecrã. É pena que, um ano depois, pareça regredir para um estilo mais familiar.

5454756867

Começamos com um flashback engraçado que estabelece a importância das partículas Pym (a ciência que permite a redução de tamanho do nosso herói) na história, saltando de seguida para um presente super-contrastado, de cores em oposição e um estilo visual demarcado que não esperava à primeira vista, mas que depressa se entranhou.

O humor vem de seguida, e funciona tão bem que durante vinte minutos somos embalados pela história medíocre e por uma construção de personagens de sitcom que não seria de esperar. O bando de malfeitores que se reúne à volta de Scott Lang (Paul Rudd, altamente carismático e com um excelente timing de comédia) é extremamente diverso, etnicamente falando, e tal dá uma personalidade invisível às conversas que é de louvar.

Com efeito, por mais que Rudd ofereça ao filme a sua característica pinta de humorista, ou que Michael Douglas (no papel de Hank Pym, o primeiro Homem-Formiga) resolva conversas com uma arremetida deadpan e violenta, Michael Peña é a verdadeira estrela. Estava literalmente a mijar de rir (quer dizer, figurativamente) sempre que o gajo abria a boca; foram poucos os filmes que vi com ele e sempre tive a ideia de ser um capaz ator dramático, mas em Ant-Man desdobra-se numa figura de comic relief que salva o filme de cair na monotonia.

Porque por mais que Peyton Reed tenha tentado, Ant-Man continua a ser o filho dos olhos de Edgar Wright. É algo em que as audiências generalizadas não vão reparar (nem devem), mas de facto há sequências de uma qualidade e originalidade que sobressaem em relação à estrutura ao pontapé do filme.

52352362

Falo principalmente da última cena de ação, entre Scott Lang e o nosso vilão, Yellowjacket (**), no quarto da filha daquele. O humor de montagem que é usado pelo realizador é descolado de um qualquer filme de Wright, alternando entre a escala diminuta dos dois adversários, sufocante de tensão, e a dimensão real dos objetos onde batalham. É divertido, espetacular e, acima de tudo, inventivo.

(**) Corey Stoll faz o que pode com o que lhe é dado, mas a verdade é que Darren Cross é outro antagonista falhado na cada vez maior lista de antagonistas falhados que amaldiçoa os filmes da Marvel. Fino como o papel, sem qualquer interesse narrativo, aparece para dar uma tensão falsa à história e desaparece sem qualquer fanfarra. É um cliché ambulante que não serve o percurso dramático dos nossos heróis da melhor forma, como já parece praxe nestes filmes.

Efetivamente, a macrofotografia de estilo foto-realístico empregada por Peyton Reed é lindíssima; aliada ao irrepreensível CGI e às cores vibrantes tornam Ant-Man num espetáculo visual no mínimo diferente daquele a que estamos acostumados. Nota-se que as escolhas técnicas foram pensadas pela equipa, e tal reflete-se na qualidade do filme.

No entanto, o primor técnico e o humor bombástico não tapam as falhas narrativas da longa-metragem. Ao distanciar-se das restantes obras da Marvel com o diminuir da escala da história (heh) para um drama familiar, em vez de uma ameaça global, Ant-Man passa por uma série de clichés seculares da narrativa de ficção, numa rajada de 120 minutos que torna tudo oco. O carisma dos atores é o que salva as suas personagens bidimensionais, muitas das quais apenas servem como instrumentos narrativos para as cenas de ação.

A perda de Edgar Wright vai doer sempre, e é precisamente ela a tornar o mais recente filme da Marvel numa aposta formulaica e fácil de gostar. Todos gostamos de rir, e sair feliz de um cinema é para a maioria mais satisfatório do que a opção contrária, mas muitas vezes é essa a tornar um filme melhor a longo-prazo.

Infelizmente, este Homem-Formiga vai ter que virar rapidamente Homem-Gigante, ou temo ninguém se lembrar dele daqui a um par de meses.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s