Big Game e o Instinto Caçador

O avião do presidente dos Estados Unidos (Samuel L. Jackson) é assaltado por um bando de terroristas, aterrando numa floresta finlandesa. Tem então que evadir os seus captores assassinos, aliado apenas de um rapaz local chamado Oskari (Onni Tommila). Este está à caça de uma besta feroz que prove a sua virilidade, para adquirir o respeito da sua tribo.

Jalmari Helander, o realizador de Big Game, é mais conhecido pelo seu filme de fantasia negra Rare Exports: A Chrismas Tale (2010), que deturpa a ficção infantil num género depravado e aterrorizante. A sua sensibilidade estrangeira parece não se ter perdido nesta co-produção americana: tem um elenco de Hollywood irrepreensível, mas a localização e custos de produção não enganam o ar finlandês do filme.

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Ray Stevenson protagoniza o agente secreto Morris, segurança privado do presidente que se revela o antagonista principal da história. A sua performance é extremamente física, elevada pelo corpo e altura do ator irlandês. Morris podia ser um vilão bidimensional, mas o argumento de Helander torna-o numa figura trágica que procura a remuneração que anos a proteger o presidente americano não lhe ofereceram.

Jackson, por outro lado, move-se pelas cenas sem suar, apesar de jogar contra o tipo de personagem que costuma protagonizar: o presidente é inepto, resignado; um homem cansado dos anos à cabeça de um país tão problemático como os Estados Unidos. Ao encontrar-se pela primeira vez com Oskari, presume que o rapaz saiba quem ele é pelo simples facto de ser o líder de uma das nações mais influentes do planeta. Fica estupefacto quando o miúdo de 14 anos ignora a sua importância.

Estes paralelismos políticos tornam interessante o enredo de Big Game; a temática da relatividade do poder e do reconhecimento é pouco explorada nesta arte dominada pelo blockbuster ocidental. A família de Oskari também é conhecida na Finlândia, porque é que o presidente não sabe quem eles são? As duas personagens trocam observações casualmente políticas que conferem uma personalidade admirável à narrativa.

Mas não se enganem por esta aparente seriedade: Big Game é um filme absurdamente camp e brincalhão, com cenas de ação que não se levam a sério ou pretendem ser mais que pura diversão. O CGI é subpar (o orçamento de oito milhões de dólares não permitiu mais), mas os visuais alienígenas da floresta invernal finlandesa compensam qualquer sequência mais amadora. Ainda bem que a história não joga pela seriedade obstinada, pois aí notar-se-ia mais a deficiência dos efeitos especiais.

Infelizmente, e apesar dos breves 90 minutos de duração, esta segunda longa-metragem de Jalmari aborrece ao tentar criar um plot de conspiração quando estabelece uma narrativa paralela na sede da CIA americana. Ted Levine e Victor Garber guerreiam verbalmente no que poderia ser um conflito interessante, não estivesse antes a empatar a história principal. Confesso que passei estas cenas à espera que Garber irrompesse numa maré de chamas e aniquilasse todos os seus compatriotas – um bocadinho de The Flash não faria mal a ninguém.

Não há muito que Big Game ofereça ao espetador casual que este não encontre noutro lado; mas o filme também só se atreve ao entretenimento medíocre, e fica-se por aí com admirável dignidade.

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