O panorama nacional em Vila do Conde 2015

Já estamos fartos de ouvir e saber que nós portugueses somos um povo saudosista, donos acérrimos da palavra nostalgia e de todo o significado que lhe é vinculado. Levamos o sentimento agarrado ao peito de tal forma que o transpomos para a própria cultura; o que é nacional acarreta quase sempre o ar de mágoa nostálgica que tanto nos identifica como nação, e que também nos individualiza.

No que toca ao cinema português, tal é bastante claro nos filmes a estrear na corrente edição do Curtas Vila do Conde. Os primeiros dois dias deste 23º ano foram inundados pela febre Miguel Gomes que tem assolado o mundo cinéfilo desde a estreia de As 1001 Noites no festival de Cannes, e apesar do épico de seis horas e mais uns trocos merecer uma conversa à parte, enfatizo a incontornável torrente de melancolia que perpassa o filme.

7445Podia-se afirmar que as estreias que se seguiram à saga satírica de Miguel Gomes foram eclipsadas pela colossal produção, mas a verdade é que se têm complementado de forma surreal, edificante de um mosaico do Homem português contemporâneo. As produções Campus, encetadas pela docuficção A Glória de Fazer Cinema em Portugal, de Manuel Mozos, que traça o suposto (e breve) percurso como cineasta do escritor José Régio, são um sólido exemplo.

A saudade parece ser um tema recorrente, ainda que abordado de maneiras distintas pelos vários artistas presentes no Curtas. Desapego, um filme académico da jovem realizadora Mariana Vasconcelos, remete ao Portugal colonialista e ao choque de culturas que os anos de imperialismo causaram às famílias emigrantes. Vasconcelos coloca em evidência as teias enleadas de segredos que se formaram após anos num estrangeiro mais português que o próprio país, e que deixaram marcas geracionais sentidas ainda hoje em dia.

Mas o destaque vai para a curta-metragem de 35 minutos de Miguel Clara Vasconcelos, Vila do Conde Espraiada, um retrato quase autobiográfico da infância e juventude do realizador, que se alia organicamente de imagens de arquivo para criar uma ode sentida à cidade portuguesa. A direção de fotografia de Jorge Quintela ilustra na perfeição os melhores momentos do filme, que junto com a trilha sonora da banda Sensible Soccers conferem à curta um anseio nervoso por uma era passada.

Por outro lado, curtas como Amélia & Duarte, de Alice Guimarães e Mónica Santos, e Bunker (imagem em cima), do veterano Sandro Aguilar, contrastam pelo seu experimentalismo formal e preciosismo técnico. Bunker em particular, com a sua narrativa de foro psicadélico, prima pelo sound design impecável e pela fotografia de retirar o fôlego. A história que conta fica em segundo plano em relação às imagens vivas do ecrã, veículos de um ardor furioso complicado de descrever, ou sequer compreender. Aguilar utiliza os efeitos sonoros e a música para criar a narrativa, quase vazia de diálogos, sugerindo um desenrolar tenebroso e indomável da narrativa.

Com As 1001 Noites a tornarem o cinema português conversa internacional (não esquecer que a sua estreia vai ser tripartida pelas semanas de 27/08, 24/09 e 01/10), e curtas-metragens como as já mencionadas a impressionar pela apresentação formal e coerência temática, o ano de 2015 está-se rapidamente a tornar um marco para o Curtas Vila do Conde, que decidiu alongar a sua duração, provavelmente para acomodar as mais de seis horas dedicadas ao filme de Miguel Gomes.

E é porventura este encargo admirável, aliado de um mais que merecido ênfase nas produções nacionais, a perpetuar a qualidade superior de um dos melhores festivais de cinema em Portugal. A semana ainda agora começou.

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