O Pátio das Cantigas e a arte de um bom trailer

Há uns dias vi no cinema o trailer para o novo remake português do clássico O Pátio das Cantigas (1942). Agora com o César Mourão a perseguir as saias da Dânia Neto, o filme apropria-se do charme dandy do original para nos trazer uma comédia portuguesa moderna, junto com brigas de rua e piadas homossexuais tentativamente inocentes. Nunca vi o original e não faço intenção de ver esta reciclagem contemporânea que quase de certeza vai vender mais bilhetes que o derradeiro filme português do ano: Capitão Falcão.

Incidentalmente, partilham ambos do ator Miguel Guilherme, dono do mais elegante over-acting nacional que conheço. Nada que salve o dito trailer de preguicite aguda: é que nem comporta o preciosismo técnico dos blockbusters estrangeiros (como o do recente Mad Max), ou uma atenção estética que prenda o público, que vimos há umas semanas no primeiro teaser a Macbeth (2015).

Infelizmente, O Pátio das Cantigas queda-se pelas piadas fáceis e pela politicamente correta fac simile.

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É certo que no que toca a trailers de comédia, grande parte da duração do vídeo tem que ser preenchida pelas punchlines do filme em questão (geralmente as melhores) não vá o público sentir-se enganado pelo tom da coisa. Mas muitas vezes esquecem-se da sempre oportuna regra do ‘menos é mais’, e aprontam-se a mostrar tudo aquilo pelo qual vamos pagar 5€ umas semanas depois. Certamente que é uma estratégia pensada, embora não permita a surpresa que é ver uma longa-metragem imaculada pela publicidade e pelos meses de promoção audiovisual invasiva.

Também há quem não se importe com este tipo de coisas, ou quem não veja trailers de todo para evitar ter o filme estragado por pormenores que às vezes nem chegam a entrar na sua versão final (eu, geralmente, encontro-me neste grupo). Mas há situações em que desviar os olhos não chega, ou em que o entusiasmo é tanto que a preocupação se desvanece.

Ora, o balanço precisa de ser encontrado. O novo Pátio das Cantigas não o tem: os seus dois minutos e meio caminham-nos pelo filme inteiro, as beats narrativas todas lá espalhadas para que não percamos nada daquilo que vai passar na tela grande. Tudo o que é alvo de galhofa no trailer é o que vai despoletar gargalhadas durante a sessão de cinema (*), mas o que mais me dá comichão é a sua estrutura ultrapassada, o uso oh-tão-português da música do Quim Barreiros, e aqueles intertítulos coloridos tão amadores que até dão dó.

(*) Confirmo a minha presunção neste aspecto, mas é complicado ver a coisa a desenrolar-se de outra maneira. De qualquer forma, que fique claro que este artigo não é de todo uma apreciação quanto ao produto final do Pátio das Cantigas: como disse, ainda não o vi. É sim, no entanto, uma apreciação ao seu trailer infeliz.

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Agora vejamos os dois spots publicitários dos filmes que mencionei previamente, MacbethMad Max: Fury Road. Este detém o prémio do trailer mais bem montado que já vi: começa com o romper de um motor violento até que entra um silêncio tenebroso repleto de suspense. A voz-off apresenta-nos de imediato à situação pós-apocalíptica da narrativa, e ao primeiro minuto os fades rápidos desaparecem para dar a vez a algo muito mais entusiasmante. Reparem também nos intertítulos enormes, que fazem um bom uso do lettering sujo dos cartazes do filme.

Irrompe então a banda sonora neo-clássica (!!), uma chapada na cara a toda a música super-séria blockbuster a que estamos acostumados nos trailers de ação. Somos assaltados por cores, dinamismo visual dentro de planos estáticos e explosões por todo o lado, mas nada do plot é realmente revelado. A montagem frenética que se segue é um deleite e certamente vendeu muita gente ao filme, principalmente aquela que nunca tinha ouvido falar de Mad Max e da loucura inerente ao franchise. O trailer é uma autêntica ópera da morte que nos fica em mente muito depois de acabar.

Já o do Macbeth também faz um excelente uso de uma soundtrack semi-diegética, com as personagens a clamar “Hail Macbeth! Hail Macbeth!” ao som de música baroque renascentista que estabelece o ritmo da montagem. É muito importante a forma como o próprio trailer nos apresenta às personagens e sucede as cenas de maneira inteligente, como a tentativa de assassínio do Macbeth ao prévio rei. Mas o verdadeiro MVP é a cinematografia de Adam Arkapaw: as silhuetas de Michael Fassbender sugerem mais do que aquilo que expõem, e as cores vibrantes são um regalo para os olhos de quem as aprecia saturadas.

A verdade é que usar estes trailers como comparação ao do O Pátio das Cantigas é injusto, não só pelos custos de produção envolvidos como pela natureza dos próprios filmes: uma comédia é publicitada de forma bastante diferente do que uma longa-metragem de ação, ou do que um drama histórico. Mas nada impede que os anúncios publicitários (que são, efetivamente, os trailers) nos cativem de uma forma mais visceral e visual, que evoquem mais do que o que realmente mostram.

A montagem, a trilha sonora e a sequência inteligente de pequenos trechos do filme (algo que O Pátio das Cantigas até nem faz mal, apesar de abusar bastante do nível de informação que veicula); todas elas são armas que quando usadas astutamente fazem de um trailer uma autêntica obra de arte que vai vender mais lugares no cinema do que aqueles que deixa vazios.

E, no final, não é isso que todos queremos?

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