Noite em Fuga e oh meu pai o que fizeste

Sou um enorme preponente da acting renaissance que se está a passar com o Liam Neeson. Acho Taken (2008) um filme eficiente de ação, e os seus papéis em filmes como Confronto de Titãs (2010) são regularmente a melhor parte. Mas foi em Non-Stop (2014) que encontrei o seu apogeu e me apercebi que não há nada melhor que um ator que se entrega de corpo e alma a um filme de ação.

Neeson volta a trabalhar com o realizador Jaume Collet-Serra pela terceira vez, desta feita em Noite em Fuga, um estiloso neo-noir de ação, com drama familiar e gangsters à mistura. Jimmy Conlon (Neeson) é um ex-assassino profissional que agora passa o seu tempo livre a beber para afogar as suas mágoas. O seu filho, Mike (Joel Kinnaman), odeia-o pela vida de mafioso que levou até então, e os dois já não se vêm há 5 anos. Mas quando Mike testemunha um violento homicídio, vai ter que juntar forças com o seu pai se quer acabar a noite vivo.

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O tratamento de cor do filme é estupendo. As cenas noturnas são iluminadas com um amarelo tórrido, ainda que preenchidas por um azul meloso; duas cores que se mesclam por oposição. O contraste elevado também ajuda a evocar o estilo gritty, sujo, que a história de criminosos homicidas nos pede.

A ação passa-se quase toda de noite, e quando chegamos ao confronto final e a aurora matinal surge no céu, dando lugar a uma névoa pesada mas clara, sentimos-nos embrenhados naquele mundo repleto de testosterona e cinismo. Collet-Serra tinha em mente o look perfeito para Noite em Fuga, e exibe-o com excelência.

Ed Harris faz o papel do vilão Shawn Maguire, amigo de infância de Jimmy. Os dois partilham uma cena excelente no início do filme, que estabelece de imediato a sua relação íntima e extensa, assim como os crimes cometidos por cada um. São dois homens a chegar a um termo com a vida, cujo passado é uma maré de miséria e arrependimentos. A forma como ambos se relacionam com os seus respetivos filhos é o ponto nuclear da história, assim como o mais emocionante.

O realizador espanhol aproveita ao máximo esta dinâmica pai/filho que o guião de Brad Ingelsby cria: Mike conseguiu afastar-se do mundo do crime ao renunciar a companhia de Jimmy, ao passo que Danny, o filho de Shawn, só se enterrou mais nos assassinos e cocaína que a vida do pai lhe proporcionou.

Apesar da narrativa pecar pela falta de originalidade, e pelas beats serem todas familiares (se estão à procura de algo novo e surpreendente não o vão encontrar em Noite em Fuga), estes paralelismos temáticos criam uma âncora emocional eficaz que mantém o espetador entusiasmado até ao desfecho sangrento da intrincada trama.

Esta, infelizmente, tem as suas falhas. Começa com um flashforward desnecessário que deixa antever o final do filme, quebrando de imediato a tensão de certas sequências bem filmadas. Com efeito, há um interregno a meio de Noite em Fuga que bem poderia ser cortado, pois serve apenas para arrastar um confronto inevitável sem acrescentar em nada à sua eficácia. A edição paralela de várias cenas também tem um ritmo deficiente, pontuado por um humor forçado que existe para disfarçar algumas pausas mais infelizes.

Apesar disto, Noite em Fuga é uma longa-metragem de ação noir extremamente competente. Sem surpresas ou pretensões inovadoras, atira-nos à força para um mundo bem formado de gangsters e uma cidade corrupta cheia de cores. Os atores são sólidos, a ação é cinética, o final previsivelmente explosivo.

Um affair impetuoso de domingo à tarde.

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