Guillermo del Toro e Blade II (2002)

Haverá superherói mais cool que o Blade? Óculos de sol, espada samurai, corte de cabelo todo gangsta-final-dos-anos-90 e uma gabardine preta até aos pés que esvoaça a cada movimento ultra-estiloso? A maravilha da trilogia Blade (1998, 2002, 2004) repousa unicamente no carisma de Wesley Snipes como a titular personagem: em muitos aspetos, o vampiro diurno é Snipes, e vice-versa; o ator completa o herói de uma forma reservada apenas para os melhores.

Em Blade II (2002), uma rara mutação gera uma nova veia de vampiros, os Reapers, monstros tão impelidos pela sua fome sanguinária que matam ambos vampiros e humanos. A Nação Vampira vê-se obrigada, então, a aliar-se com o seu mais odiado inimigo: o caça-vampiros Blade.

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Na semana passada falávamos de como Unbreakable surgiu antes da grande explosão do filme de super-herói, e de como ainda hoje se afirma pela sua singularidade, apesar de relativamente antiquado. Ora, se Blade II saísse hoje seria igualmente ultrapassado, mas por razões completamente diferentes.

Nota-se uma clara inspiração na trilogia Matrix dos Wachowskis, desde as acrobacias em CGI (muito bem conseguidas por Guillermo del Toro) às cenas noturnas passadas em bares, com a música house a ribombar e a juventude vestida de couro e pulseiras afiadas. Este tom subterrâneo está tão demarcado que quase se vê isto como uma peça de época saída do século passado.

Blade II também é primeiro filme de superheróis de Guillermo del Toro, que apesar de já ter realizado set-pieces intensas em Mimic e momentos de puro terror em A Espinha do Diabo, ainda não se tinha provado capaz de realizar um blockbuster de ação tão puro quanto este. O realizador mexicano traz para o franchise as suas cores azuladas e douradas, assim como vísceras em excesso e pormenores nojentos que marcam o filme. Crânios decepados, líquidos gordurosos verdes, cérebros amarelos; tudo detalhes medonhos que deixam a audiência embasbacada.

A sensibilidade de del Toro mescla-se na perfeição com o tom tenebroso da narrativa. Empresta-lhe visuais macabros e sequências de ação bem pensadas e filmadas, que se apropriam do meio ambiente com mestria, tornando as ações e movimentos das personagens verdadeiramente genuínos.

O que é uma lástima é o guião de Blade II ser escrito por David S. Goyer, um argumentista que eu, no mínimo, desprezo. Goyer tem um ouvido para insultos floreados e diálogos puply que passam pela auto-paródia sem se estragarem, mas é também extremamente preguiçoso e banal no que toca à construção da narrativa e no desenvolvimento das personagens. A força destas repousa somente no papel dos atores, que por sorte estão à altura do que lhes é dado e divertem-se à brava. Ron Perlman é fantástico como o vilão Reinhardt, e Kris Kristofferson continua a sua rotina de Snake Plissken ao fazer do bom mentor Whistler.

Por outro lado, Norman Reedus (sim, o Daryl) não passa de uma caricatura que existe somente para um plot twist desinspirado que retira muita tensão à história pelo simples facto de ser desnecessário. Do mesmo modo, Goyer força um romance de Hollywood entre Blade e Nyssa Damaskinos, a filha do vilão, duas personagens que mal conversam e que quando o fazem é sem química nenhuma. A cena final é absolutamente risível pelo quão mal enquadrada está com o tom que Guillermo del Toro nos dá; nota-se um desfasamento entre guião e produto final.

Blade II acaba por ser outra entrada medíocre na filmografia de del Toro, apenas porque a história que nos conta é ordinária e cuja idade, meros 13 anos depois, já se começa a sentir. Mas vale a pena pelas cenas de ação e pela minúcia incipiente do realizador mexicano, cujo olho para imagens repugnantes e momentos de pura adrenalina continua a impressionar.

E também porque Blade é simplesmente o herói mais smooth de sempre.

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