Game of Thrones – O Bom, o Mau, e Dorne

Nota: Spoilers, claro.

Santa merda. No que é provavelmente o melhor final que Game of Thrones já orquestrou, a quinta temporada chega a um fim que se provou ultimamente divisório para os fãs da série. Quando ainda era um épico medieval incipiente, Game of Thrones construía a sua trama através de um enlaçar maquiavélico dos cordelinhos narrativos que tinha ao seu dispor. Se analisarmos a primeira temporada, a morte de Ned Stark começou a ser telegrafada desde que recusou o cargo de Mão do Rei por simples nobreza: foram nove episódios de um perfeitamente calculado jogo de xadrez que nos trouxe uma das mortes ainda mais sentidas da série.

O infame Red Wedding também se demonstrou tão eficaz porque a terceira temporada recaiu muito sobre a contenda entre os Stark e os Lannister, permitindo à audiência entender com clareza os jogos de guerra e política que ambas as fações iam tomando, assim como os pequenos pormenores que mais tarde viriam a resultar em grandes explosões de sangue (quem diria que as cartas que Tywin Lannister lia e escrevia em quase todos os episódios eram dirigidas para o senhor das Gémeas Lord Walder Frey?).

Desde então que a série se tem estruturado à volta de momentos em vez de arcos narrativos por inteiro. Reparem no número de clímax que a quarta temporada teve: a morte do Joffrey, a conquista de Meereen, o julgamento do Tyrion, a morte do Oberyn, a batalha na Muralha, e a erupção de mortes do último episódio que nos roubou do bom senso perverso de Tywin Lannister. Estes momentos criam discussão à volta da série e servem-na mais em termos de publicidade do que propriamente na criação concordante de uma boa história, algo que se sentiu pela negativa esta temporada.

Mas o que é que Game of Thrones fez ao certo de errado, e o que é que resultou (*) ?

O Bom

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Duas narrativas que a série melhorou face aos livros, e com as quais temos uma clara progressão dramática de forma emocionalmente eficaz são as do Tyrion/Daenerys e Stannis/Jon Snow. Naquela, tivemos uma convergência que ainda não aconteceu na obra de George R. R. Martin, permitindo o chocar intelectual de duas das figuras mais importantes de Game of Thrones, que tornaram o marasmo repetitivo de Meereen muito mais interessante. Como já discuti anteriormente, Dany aprendeu que governar não é tão fácil quanto conquistar.

A demanda de Tyrion por Essos é a menos falada este ano por ser tão descomplicada, mas é essa simplicidade que a faz resultar. Encontramos o filho Lannister mais novo a deprimir no seu próprio vómito, fedendo a suor e vinho, sem nenhuma vontade de continuar a viver após ter sido traído pelo seu pai e amada. Encontra em Daenerys, com a ajuda do sempre bem-vindo Varys, uma razão para acabar com a devassidão decadente na qual tinha encontrado o seu asilo. A energia que o anão demonstra assim que chega a Meereen é inspiradora, e as (poucas) conversas que troca com a Mãe de Dragões são das mais pujantes em termos líricos que a série já nos deu.

Já Stannis é uma figura trágica desfeita pela sua própria severidade. A forma como os argumentistas nos re-introduziram à sua dinâmica familiar é magistral: provando que o One True King™ é mais que uma casca dura de aborrecimento e que pode amar, sentimos um afeição imediata pela sua filha Shireen e um desapego enorme pela fria mãe Selyse, que no final é horrendamente revertido.

Então, aos poucos, Stannis é roubado de todas as armas a seu dispor, ao mesmo tempo que se priva a si mesmo dos elos mais humanos. Encontrou em Jon Snow uma alma gémea que nos ofereceu duas excelentes conversas e momentos na Muralha, moldando a história de ambas as personagens durante o resto da temporada: Jon encontrou nos wildlings o significado para o seu efémero cargo de Lord Commander e Stannis viu em Lord Snow a determinação de que se fazem os réis, levando-o a prosseguir para Winterfell à custa de tudo e todos.

Dois cruzamentos interessantes de personagens: um inspirador, outro trágico; ambos tão bem arquitetados que se os virmos em sequência podem formar dois pequenos filmes com um início, meio e fim, junto com bons momentos e um clímax formidável e devastador.

O Mau

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A história de Sansa começou bem. A sua breve jornada com Littlefinger enquadrou-a num molde mais endurecido de personagem, com uma agência própria de que estava a precisar desde a enésima brutalidade às mãos de monstros como Joffrey. Ao posicionar-se estrategicamente em Winterfell, abriu-se um poço profundo de oportunidades narrativas: enclausurada no sítio onde nasceu, pelos monstros que assassinaram metade da sua família, Sansa poderia perpetrar a sua vingança de forma fria e calculada; um momento de bradar aos céus com o punho no ar no que seria um excelente clímax para a personagem.

Em vez disso foi novamente violada às mãos de um homem ainda pior que Joffrey, com a sua história redireccionada para o sofrimento psicológico de Theon. O herdeiro Greyjoy merecia também um vislumbre esperançoso após duas temporadas sob o tormento de Ramsay Bolton, mas não à custa do arco narrativo de Sansa.

Esta acaba uma donzela em perigo sem maneira de agir, à espera que Theon acorde do seu transe ou que Brienne a acuda do outro lado de Winterfell. O pior é que Brienne, num gesto de desnecessária maquinação por parte dos argumentistas, resolve ir encontrar Stannis no meio de um enorme e desbaratado exército em vez de cumprir o seu juramento a Catelyn (outra vez), deixando para Theon o acto de salvar Sansa ao tombar Myranda aleatoriamente e guiar a filha Stark para fora de Winterfell.

Assim, Ramsay continua vivo sabe-se lá porquê, Theon parece cada vez mais sofrer de bipolaridade e Sansa voltou a cair nas mãos de um monstro sem conseguir vindicar a sua situação precária. Não houve nenhum clímax, nenhuma progressão das personagens e as peças em Winterfell continuam relativamente as mesmas desde que lá chegámos. Pergunto-me, então, qual foi o propósito desta aventura extraviada?

Dorne

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Dorne, Dorne, Dorne. Nos livros, um éden para a igualdade de géneros, no qual o reinado feminino não é só uma realidade como um autêntico dado adquirido. As Sand Snakes são símbolos díspares e bem realizados (ainda que arquétipos) de mulheres: destemidas, inteligentes, mas demasiado impetuosas. Nos livros, lutam para que Myrcella se torne rainha de Westeros já que homens não trouxeram nada mais que destruição ao reino. Na série, querem assassinar Myrcella como vingança pela morte de Oberyn (saudades Oberyn), que nada teve de criminal já que morreu num combate justo para o qual se voluntariou.

Esta mudança pequena mas difícil de entender alterou por completo a dinâmica desta história em particular, assim como tornou uni-dimensional a personalidade das Sand Snakes, que daqui para a frente só vão ser conhecidas como ‘a do chicote’, ‘a da lança’ e, invariavelmente, ‘a das mamas’. O tempo passado em Dorne foi tão reduzido e mal aproveitado que só nos deu duas ou três cenas com o brilhante mas quebrado estratega Doran Martell, que não passa de um covarde sem espinha nesta temporada.

Não quero sequer entrar pelo aborto narrativo que foi colocar Jamie em Dorne de modo a convergir estas duas tramas; como esperava ele invadir um palácio e raptar a sua filha sem ninguém notar? A sequência de ação em que chega aos Water Gardens é tão dramaticamente inepta que me leva a questionar como é possível a equipa de produção assegurar momentos tão perfeitos como em Hardhomeou mesmo a pequena cena em que Jamie e Bronn derrotam três lanceiros na costa de Dorne, e deitar por terra um combate que tinha tudo para resultar.

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Efetivamente, Dorne é o culminar da busca por momentos que tem levado Game of Thrones a perder-se na sua história-mosaico. As personagens da série definem-se todas pela maneira como lidam com as instituições a que estão presas: Jon Snow luta por eliminar a xenofobia intrínseca a uma literal muralha que separa dois povos; Dany rebela-se contra o esclavagismo de Essos; Cersei é determinada em afirmar o seu poder feminino numa corte de homens, etc; esta é a temática definitiva que acompanha todas as diferentes personagens e as suas aventuras.

Infelizmente, de nada nos serve se os criadores da série estiverem mais preocupados em oferecer cenas chocantes só porque pensam que é o que nós queremos, em vez da unificação narrativa a que nos habituaram, com sucesso, durante as três primeiras temporadas. Não me entendam mal, eu adorei este quinto ano de Game of Thrones, e considero o final, no seu todo, fantástico. Apenas acho pertinente discutir o que não funcionou tão bem, pois vai sem dúvida influenciar a direção da série daqui para a frente.

(*) Não vou falar de tudo o que se passou esta temporada, como a crise de fé em King’s Landing e o passeio da vergonha de Cersei, ou as aventuras completamente à parte de Arya “No One” Stark. Gostei de ambas mas sinto que houve arcos melhor trabalhados, e outros muito pior construídos que são mais dignos de discussão.

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