Mundo Jurássico e godzilla para quê

Durante o acto final de Mundo Jurássico só conseguia pensar: “Isto é bem melhor que o Godzilla!”. Referia-me ao filme de 2014, realizado pelo modesto Gareth Edwards, cuja mestria spielbergiana estaria muito melhor indicada para esta última incursão no parque de diversões mais perigoso da ficção do que no carrossel colossal de obliteração japonesa. É que até atores nipónicos o filme tem, assim como bestas gigantes a enfrentarem-se mortalmente sem a menor preocupação pelas vidas humanas liquidadas ou pelos edifícios arruinados.

Na verdade, Mundo Jurássico pede mais emprestado à estrutura do cinema kaiju japonês que às aventuras científicas do bando de Sam Neill no filme original da saga de dinossauros, em 1993. O sentimento de maravilha desapareceu: Colin Trevorrow, o realizador, omite (ou esquece-se) o que tornou a longa-metragem de Steven Spielberg tão especial. Substitui as set-pieces de suspense calculado por tiroteios frenéticos e perseguições tão efémeras quanto desnecessárias; suplanta o intelectual pelo trivial.

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Ao contrário de em Parque Jurássico, a interação divertida e/ou propensa a filosofias das personagens é inexistente nesta terceira sequela: Owen Grady (Chris Pratt, em boa forma) e Claire Dearing (Bryce Dallas Howard) são autênticas caricaturas, cujo único propósito é entreter a audiência com um flirt inocente e empurrar a narrativa na direção que precisa de tomar para o seu final climático. Não há muito que faça sentido nas suas conversas uni-dimensionais, já que não contribuem para a unidade temática que algumas cenas do filme parecem inferir.

Porque em 2015, vinte anos após o Parque Jurássico original, os seres humanos já não se sentem impressionados com meros dinossauros. Ver um T-Rex enjaulado é o mesmo que presenciar um elefante num zoo qualquer, diz a certa altura uma das personagens. É preciso mais; mais dentes, mais garras, simplesmente mais. A busca por novas experiências é muito do que nos define a nós humanos como espécie, e Mundo Jurássico torna-se imediatamente mais interessante quando tenta explorar esta veia temática.

Infelizmente prefere sangue e confrontos brutais entre as suas criaturas ao diálogo inteligente com o espetador, que é obrigado a tornar-se naquilo que o próprio filme critica. No entanto, foram estes confrontos violentos que me deixaram impressionado e eufórico: o geek em mim não sabia desejar lutas de arena entre T-Rexs e velociraptors, ou massacres positivamente ridículos perpetrados por sanguinários pterodáctilos, mas a verdade é que o fazia. Não têm o mesmo impacto que a ansiedade nervosa das cenas criadas por Spielberg, mas atuam de uma forma mais visceral que não pude deixar de apreciar.

Bryce Dallas Howard e Chris Pratt são também dois protagonistas carismáticos que fazem o melhor que podem com o papel desinspirado que lhes foi dado. Howard acrescenta maneirismos e tiques inquietos à sua cientista, que recusa os avanços do encantador (de dinossauros) Chris Pratt com uma assertividade feminina que é lamentavelmente desfeita por um beijo non sequitur, criação infeliz de um romance necessário apenas porque Mundo Jurássico é um blockbuster de Hollywood.

Por mais ridículo que a sequência final acabe por ser, devido a todas as intervenções deus ex machina por parte dos dinossauros mais inesperados do parque, Mundo Jurássico resulta ao oferecer um nível de destruição mais animalesca do que os actos super-heróicos de outrem, com um sentido de humor surpreendentemente eficaz, ao contrário da reciclagem parola de Spy. 

Mas também é infinitamente inferior ao seu tetravô de 1993, mesmo em termos de efeitos digitais, por mais incrível que pareça. Não há coesão narrativa, as personagens pecam pelo seu desinteresse e não nos oferece uma composição cinemática bem pensada; antes ocupa-se do ecrã a mentalidade comercial e industrial que o filme tanto parece caluniar.

Não é um bom filme, mas, como dizia o meu gritante instinto, é bem melhor que o Godzilla. 

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