TV & Cinema – A era dourada

O aspeto mais curioso da televisão americana (*) é a sua denominação de “Golden Age” a quase todas as fases do meio audiovisual. Isto é, da mesma maneira que há movimentos cinemáticos que se distinguem pela sua reação uns aos outros (ou por integral originalidade), as diferentes eras televisivas partilham do mesmo nome, ainda que com o tentativo prefixo de “segunda”, ou “terceira”. Atualmente, estaríamos na terceiraembora a categorização não seja assim tão simples.

A primeira “Golden Age” deu-se durante os 1950s, com os dramas ao vivo de dramaturgos como Rod Serling e Paddy Chayefsky; a segunda 20 anos depois com a erupção das sticoms clássicas como Uma Família às Direitas (1971-79), ou nos anos 80 durante a serialização complexa das séries dramáticas, ou ainda nos 1990s com o crescimento de novas estações televisivas que nos trouxeram programas como Os Simpsons (1989- ) ou Ficheiros Secretos (1993-2002).

(*) Cuja interseção com o cinema contemporâneo analisamos nesta série de artigos.

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Esta dificuldade em chegar a um consenso vai de encontro à variedade e duração de algumas séries; enquanto um movimento cinemático pode-se definir por um ano, ou dois, com meia dúzia de filmes, um movimento televisivo durará irremediavelmente muitos mais anos pois as séries tendem a prolongar-se durante várias temporadas. Com efeito, a outra era dourada da televisão, da década passada, foi definida por homens complexos com um compasso moral extremamente intrincado, como Tony Soprano em Os Sopranos, que durou seis temporadas. A série tornou-se tão bem sucedida quanto desinspirada, e aquando da estreia de Breaking Bad (2008-2013) o meio já caminhava noutra direção.

Em jeito redutivo, só na última década e em particular nos últimos cinco anos é que os riscos começaram a ser realmente tomados no panorama televisivo. Os argumentos tornaram-se mais complexos, a realização e direção de fotografia mais cinemática e de uma maior destreza, os diálogos mais floridos e bem escritos. Mas não são somente estas questões mais técnicas a influenciar o crescimento qualitativo dos serials no pequeno ecrã.

Desde sempre as temporadas televisivas (mais ou menos correspondentes a oito meses) eram constituídas por um sem número de episódios, entre 22 a 26. Eram de tal modo extensas que a forma utilizada para contar as histórias consistia num caso semanal com início e fim; a única coisa que perdurava de semana a semana eram as personagens. Até há relativamente pouco tempo era este o método predilecto de se contar histórias no pequeno ecrã: séries como E.R. (1994-2009), C.S.I (todos eles), e a maior parte dos policiais podem-se incluir neste grupo.

No entanto, a partir de certa altura mais ou menos coincidente com o início e fim de Os Sopranos, nota-se um certo complexificar das narrativas a serem contadas. Esta série e as consequentes séries ‘adultas’ da HBO corriam com 13 episódios de uma hora semanais por temporada, e o seu inegável sucesso levou a que todos os canais tivessem que se adaptar ao novo paradigma, correndo o risco de perder espetadores interessados em acompanhar algo mais em voga e moderno.

Séries como C.S.I introduziram a noção de um assassino ou caso criminal que perdurasse durante a temporada inteira, de modo a prender os espectadores semanalmente. A série House não o fez de forma semelhante, optando por se adaptar através da exploração profundamente psicológica das suas personagens, que progrediam (ou regrediam) de ano a ano; tornavam-se reais aos olhos do espetador, não somente bonecos bidimensionais num ecrã de televisão.

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A simples passagem de 22 episódios anuais para 12 ou 13 permitiu aos argumentistas explorar de forma mais concentrada e tensa as suas histórias. O número reduzido de horas semanais possibilitou uma melhor utilização do orçamento, assim como uma maior facilidade para estrelas de Hollywood migrarem para o pequeno ecrã.

Mais do que qualquer outro factor, foi esta brusca mudança no modelo de contar histórias a atrair a atenção de grandes realizadores e atores. Casos semanais independentes um dos outros não chegava para satisfazer o paladar mais afinado da audiência, assim como a crítica especializada que passou a analisar de semana a semana as suas séries favoritas. Narrativas serializadas, com arcos abrangentes e interdependentes de episódio para episódio, é que começavam a dissolver as linhas bem definidas entre a televisão e o cinema.

Voltando a este último, só 40 anos depois do primeiro filme de Star Wars (1977) é que assistiríamos a um reviver até agora duradouro dos filmes serializados. O advento do novo milénio trouxe um ressurgimento de um número considerável de filmes com sequelas: a nova trilogia de Star Wars e o primeiro Matrix em 1999; O Senhor dos Aneis e o primeiro Harry Potter em 2001; todos eles franchises que duram até hoje, de uma forma ou de outra. Reboots e remakes tornaram-se norma, apesar de uma com precedentes em Hollywood, o reino mágico do incesto fílmico-

Assim, a sequela serializada é de tal maneira aceite pelo público geral que cada vez mais se populariza o seu extremo: o universo cinemático, que iremos analisar no próximo artigo.

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