Shyamalan e Unbreakable (2000)

Numa altura em que o filme de superherói ainda estava a emergir (X-Men saíra uns meses antes, e o primeiro Homem-Aranha só chegaria em 2002), Unbreakable (2000) introduziu às audiências a ideia de uma origin story, e adaptou de forma exímia a estrutura de banda desenhada ao grande ecrã.

Bruce Willis volta a juntar-se a M. Night Shyamalan, desta feita para protagonizar a personagem de David Dunn, um guarda de segurança da Filadélfia, que ao longo da narrativa se apercebe que tem superpoderes. Samuel L. Jackson faz o papel de Elijah Price, um nerd de banda desenhada com uma doença rara que se torna mentor de David e o guia na sua demanda de melhor entender o dom que lhe foi dado.

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Shyamalan começou a escrever o guião de Unbreakable durante a pós-produção de O Sexto Sentido, a ideia um esboço da estrutura tripartida dos livros de banda desenhada: o ‘nascimento’ do superherói, as suas contendas com alguns bandidos e malfeitores, e a derradeira batalha contra o seu arqui-inimigo.

Ora, este némesis é figurado normalmente como o total oposto do nosso herói (quer fisicamente como mentalmente): o Hulk enfrenta o Abominável, o Homem de Ferro o Monge de Ferro, etc.; pelo que um dos aspetos mais interessantes de Unbreakable é como insere esta dinâmica seminal na sua história de origem.

Aliás, todo o filme é um testamento aos arcos narrativos popularizados pelo mundo da BD, e da forma como eles se traduzem numa longa-metragem: David é caracterizado pela sua integridade moral, indestrutibilidade e visões sensoriais (sempre que toca em alguém é assolado por imagens passadas e futuras da vida dessa pessoa), Elijah pelo seu pragmatismo, fragilidade e insegurança. Os dois, à laia dos quadradinhos, são informados visualmente pelas cores que lhes são associadas: David o verde, Elijah o roxo. São signos que tornam as suas personagens mais tangíveis, mas mostram também o quanto Shyamalan absorveu a cultura de banda desenhada para o seu guião.

Por outro lado, Unbreakable é um filme extremamente dramático e meticuloso com as cenas de ação (na realidade só há uma e é durante o clímax final), dois aspetos que a onda contemporânea de cinema super-heróico não pressupõe, mais virados para a destruição blockbuster que outra coisa. Também emprega um estilo ultra-realista, de tons des-saturados a cair para o ciano que mais tarde viríamos a elogiar em O Cavaleiro das Trevas (2008) do Nolan (e que entretanto voltou a sair de moda).

Este ritmo moroso seria hoje cuspido em cima: cadê os prédios a cair e os efeitos especiais? Unbreakable distingue-se por esta progressão estruturada e pensada que se centra no colapso emocional das suas personagens em vez do dito desterro de arranha-céus infinitos. Nada contra esse tipo de destruição urbana; só o digo como uma palavra de apreço à originalidade da adaptação mais psicológica de Shyamalan.

Feliz ou infelizmente, o realizador volta a utilizar o seu twist icónico, desta feita com retornos decrescentes em relação a O Sexto Sentido. Há quem adore a revelação climática do verdadeiro inimigo de David Dunn, até porque está bem telegrafada em termos de realização: as composição equiparam-se às de um quadradinho de banda desenhada, e essa personagem aparece nos seus momentos mais icónicos em reflexões de espelhos, ecrãs de TV e vidro no geral; um piscar de olho à sua nomenclatura de super-vilão. Mas a mim deixou-me com um trago amargo porque derrota a mensagem positiva e esperançosa do resto do filme, que constrói uma história de origem perfeita para David.

No fim, esta segunda longa-metragem de M. Night Shyamalan volta a demonstrar um cineasta com um dom para enquadramentos sugestivos e um controlo magistral do pacing das cenas e dos seus atores. A forma como cria atmosferas únicas e estimulantes através de tons de cor emotivos e trilhas sonoras singulares resulta tão bem quanto no seu filme anterior, embora as curvas narrativas comecem a tornar-se desnecessárias e existentes para um shock value que nada serve ao filme em si.

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