Brad Bird e a Operação Fantasma (2011)

Eu sou um gajo que sofre de vertigens. Imenso. Nos meus tempos de criança a jogar Lara Croft tinha que passar o comando ao meu irmão para saltar de precipícios pois as minhas mãos tornavam-se numa autêntica cascata de suor. Era terrível. Hoje em dia isso acontece com filmes: começo-me a sentir um frangalho exausto, os pés ficam húmidos; imagino a aflição do dito acrobata a escalar o maior arranha céus do Dubai.

É escusado dizer que vi Missão Impossível IV com o coração em pantanas.

Ethan Hunt (Tom Cruise) luta contra o tempo ao perseguir um perigoso terrorista, Hendricks (Michael Nyqvist), que ameaça uma guerra nuclear entre a Rússia e os Estados Unidos. Hunt e a sua equipa são repudiados pelo governo americano quando o Kremlin explode durante uma operação, dando início à titular “Operação Fantasma”.

4252

Os filmes Missão Impossível são bastante singulares e distintos entre si. Desde a primeira entrada no franchise em 1996 que o realizador nunca foi o mesmo: Brian de Palma, John Woo, J. J. Abrams, Brad Bird e agora Christopher McQuarrie. De Palma invigorou o género com o seu estilo característico de suspense, Woo deu a volta ao jogo de espionagem para fazer um filme de ação com uma pinta James Bond, e Abrams utilizou o seu infame conceito de mystery box para criar uma narrativa empolgante e diferente.

Já Brad Bird, na sua primeira longa-metragem live action, devolve à série de filmes a composição de enquadramentos precisa, a sensação de escala e magnitude que faltava desde o primeiro Missão Impossível em ’96. A construção de cenas é impecável de início ao fim, principalmente durante as set-pieces de ação centrais.

Operação Fantasma oferece-nos adrenalina de parar o coração logo nos primeiros minutos: o motim de prisão no Kremlin é uma maneira fantástica de dar o empurrão ao primeiro acto, e a explosão que se segue um legítimo showstopper. A sequência final em Mumbai também tem energia de sobra, mas é a façanha literalmente impossível de escalar o Burj Khalifa que leva o prémio.

E porquê?, perguntam aqueles que ainda não a viram. Porque é simplesmente bom cinema.

52663

Bird já nos tem mostrado que sabe melhor que ninguém como construir uma narrativa através de cenas de ação imaculadas, pela forma como veiculam a aflição e determinação das suas personagens. É um dom do homem: tornar movimentos de acrobacia perigosa numa pirueta cheia de graça de um qualquer espetáculo de ballet. Quer sejam os duplos ou os próprios atores (Tom Cruise faz os seus próprios stunts) em situações de risco, somos invariavelmente estimulados pela sua habilidade atrás da câmara.

O realizador também sabe quando deve desarmar uma cena com humor sem rebaixar a tensão: Simon Pegg é sem dúvida a comic relief de Missão Impossível IV, mas não é nenhum Jar Jar Binks a atirar pastilhas de humor para o ar à espera que colem. Tal deve-se à aptidão do ator versado neste tipo de papel, mas a direção de Bird conta imenso não só no timing das tiradas cómicas mas também na sua preponderância em relação à ação.

Voltando ao Burj Khalifa, e ao que o torna numa das melhores sequências de ação de todos os tempos, temos o super-espião Ethan Hunt a escalar o maior arranha-céus da Terra munido de um par de luvas gravitacionais. E então o que é que acontece? Uma delas falha. Assim que chega à destinada janela, saca do seu laser-corta-vidros e antes que consiga dizer ‘ai, mãe!’ perde o equilíbrio e volta a cair. Juro que eu próprio dei um tombo da cadeira; as minhas pernas já não aguentavam de tanto tremer.

Nesta cena, tudo corre mal. Literalmente tudo. Este é o segredo para um bom argumento: conflito. Imaginem: o Zé quer uma cerveja. Chega ao bar, pede-a e bebe. Interessante, não é? Não, não é. Agora pensem assim: o Zé quer a cerveja mas, quando chega ao balcão, o barman ignora-o. Passam-se uns minutos até que o Zé se farta e sobe o balcão para tirar a sua cerveja. O barman repara e de repente a tensão é de cortar à faca; sustemos a respiração até a situação se resolver, quer com Zé a beber a cerveja quer com o barman a espetar-lhe um copo nas fuças.

Conflito. Infelizmente é também essa a razão a tornar Operação Fantasma num exercício empolgante de ação que falha em tudo o resto. As personagens, desde Hunt a Hendricks, são tão finas quanto papel, as suas interações (excepto o humor bem colocado) pecam por não serem de todo memoráveis e a simplicidade da narrativa, ainda que resulte, é preguiçosa e pouco original. Passamos as duas horas com a sensação comichosa de que já vimos tudo aquilo em algum lado.

Se pudessemos classificar um filme como o conjunto de cenas de ação bem construídas, Missão Impossível IV estaria perto do Indiana Jones do Spielberg ou do Die Hard do McTiernan. Infelizmente esses filmes também têm arcos narrativos cativantes e personagens bem desenvolvidas; algo que este Missão Impossível se esqueceu de criar.

No entanto, se algum dia quiser morrer de vertigens, que seja com o Tom Cruise a atirar-se de uma janela do Burj Khalifa.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s