2015 e o ano das inteligências aritificiais

Parece incrível mas já estamos praticamente a meio do ano. A época dos blockbusters abriu oficialmente com o mais recente titã da Marvel, e agora todas as semanas somos assaltados com uma fúria de filmes concebidos para nos entorpecer os sentidos com o mais elevado nível de ação digital. Espetam-nos a cola no banco da sala de cinema e tudo para além do ecrã gigante desaparece por um par de horas – escapismo no seu melhor.

Mas cinema comercial à parte, este ano tem sido fantástico para amantes de ficção científica e ainda melhor para os apreciadores da vertente que explora a robótica e a evolução da tecnologia pertinente às inteligências artificiais (IAs). É verdade que 2014 nos trouxe aberrações como Transcedence, aquele filme com o Johnny Depp que ninguém viu, mas as entradas deste ano têm cumprido a promessa de analisar de forma coerente as suas temáticas.

Daqui a umas semanas teremos outro registo para este cânone em Terminator: Gensys, mas algo me diz que as IAs desse filme vão estar mais preocupadas em se obliterar mutuamente do que em criar uma discussão inteligente acerca da sua existência.

Portanto exploro neste artigo um pouco do que define os humanos artificiais mais cativantes deste ano até agora.

Chappie – Chappie

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Chappie o robô e Chappie, o filme, é talvez o que menos se importa com a coerência temática da sua IA. Propõe-se a redefinir a questão seminal deste tipo de obras: ao fim e ao cabo, o que é um humano? O que é a alma, e será que existe? Pode ser fabricada? A génese desta pergunta é absorvente, assim como o infinito número de respostas que foram levantadas desde então.

Mas Chappie esquece-se disto a meio do filme quando mistura o seu tom dramático/sci-fi numa comédia estridente de ação altamente divertida. O robô passa então a ser o símbolo de uma alma imaculada, cuja personalidade é moldada pelos dois pares de figuras paternas que o puxam em direções opostas. Deon Wilson, o seu criador, prefere estimular a criatividade de Chappie e o seu espiríto crítico; Ninja, um gangsta que rapta o robô, prefere levá-lo em assaltos e ensiná-lo a segurar uma arma em condições.

Por outro lado, o núcleo emocional de Chappie é estimulado por Yolandi, a ‘mãe’, que não deseja nada mais que o seu bem estar. É tudo muito preto no branco, mas o filme acaba por encontrar momentos de pura emoção quando coloca Chappie entre a espada e a parede que são as moralidades díspares dos seus ‘progenitores’.

Neill Blomkamp, o realizador, cai mais para o lado de como a educação influencia as nossas vidas, versus questões mais naturais como a genética e a ciência, focando-se portanto nos aspetos que considera mais importantes para o clímax do seu filme, e não aqueles que porventura seriam normalmente analisados. É uma opção arriscada, mas que paga os seus dividendos por ser emocionalmente honesta.

Ava – Ex Machina

8585Alicia Vikander é a atriz com o melhor papel deste ano. A sua representação como Ava é perfeita: desde os maneirismos comedidos e tímidos quando conhece pela primeira vez Caleb, até à fúria impetuosa que demonstra nos últimos minutos de Ex Machina. 

Muita desta versatilidade deve-se não só ao seu desenvolvimento como personagem, mas à sua aparência física. De feminino tem as curvas e os seios robóticos, e de humano pouco mais: a face é arredondada por uma cúpula artificial exposta, e as mãos seguem um braço transparente composto por cabos e electricidade. O maior feito, portanto, é conseguir que o espetador esqueça o seu aspeto para a ver como alguém humano, irradiando personalidade, necessidades e desejos. Uma pessoa, portanto.

A temática de Ex Machina tem um cariz incomum. Apesar de colocar a questão do que é que distingue uma IA do Homem, não é essa que propriamente explora ao longo do filme. Alex Garland, o realizador, está mais preocupado em analisar as desigualdades entre os sexos, assim como o olhar masculino que muitas vezes nos é impingido por filmes como este.

Cria um discurso fantástico com a audiência, caso esteja interessada em ser provocada e estimulada por um ponto de vista ultrajante, que não é bem feminista, mas sem dúvida anti-homem.

Ultron – Avengers: Age of Ultron

56373Ultron é uma criação curiosa. Podemos defini-lo como a criança artificial de Tony Stark, que absorve através da web todos os feitos do seu ‘pai’ e os recusa como dogmas falhados de uma raça inferior à sua. Parte daí num alvoroço homicida em que pretende erradicar o planeta do Homem como única maneira de terminar os suplícios da Terra.

É discutível, mas os robôs psicopatas atingiram o seu apogeu em 1968 com HAL 9000 e a Odisseia no Espaço, talvez a primeira vez em que a filosofia humanista alcançou incisivamente criações artificiais como HAL. O que torna Ultron tão interessante é a forma como replica o sarcasmo de HAL, e até o seu amor por música pop. Assassinos desvairados tornam-se tão mais divertidos quando têm um sentido de humor.

No entanto, Ultron não chega bem ao patamar de inteligência artificial pois a sua lógica é influenciada pela perspetiva e ações de Tony Stark. É como se o seu ‘ADN’ estivesse corrompido por uma base de dados aviltada; percebemos que a personalidade do robô é apenas um excesso maligno dos sentimentos mais impuros de Stark. Ultron nunca vai conseguir desenvolver uma moralidade totalmente tridimensional porque a impressão genética do seu pai é demasiado preponderante.

Joss Whedon, o realizador, acaba por criar uma temática interessante na forma como explora questões morais relativas à transferência de traços hereditários, mas não propriamente sob a alçada de uma IA bem construída.

Vision – Avengers: Age of Ultron

5363231Debatia-me sobre se havia de incluir Vision nesta pequena lista por uma única razão: o seu tempo no filme é demasiado reduzido para ter um arco narrativo satisfatório como inteligência artificial. Com efeito, a sua existência significa apenas uma antítese à de Ultron; ou seja, a sua posição na narrativa limita-se a um contraponto temático à destruição repreensível do outro robô.

Vision é amável, benigno; worthy, como diria Thor. A sua criação deve-se a uma miríade de elementos que podem ser analisados metaforicamente: a programação de Stark e Banner como elemento humano, a tecnologia futurista do seu berço como artificialismo, a composição metálica do seu corpo como ligação às matérias-primas da Terra, e a magia de Thor como aspeto mais esotérico, espiritual ou religioso.

A personalidade de Vision é, portanto, uma amálgama de um sem número de aspetos impossíveis de serem conjugados de outra maneira. É inocente, não superficialmente mas até à sua mais recôndita sinapse cibernética. É uma obra de Deus, ou deuses, uma nova raça: a mais pura das inteligências artificiais.

E talvez por isso se torna uma personagem interessante de um ponto de vista filosófico, mas não de uma perspetiva narrativa.

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