Game of Thrones e o poder feminino

Nota: Spoilers para o episódio mais recente.

O último episódio de Game of Thrones tem causado ondas de controvérsia na web pela cena de violação de Sansa, e de como significa apenas um shock value desnecessário para o desenvolvimento emocional da personagem. É um debate pertinente, mas que está a ser discutido e articulado por pessoas muito mais capazes do que eu. Com isto em mente, esta temporada também tem levantado outros juízos relacionados com a política feminina de Westeros, em particular as posições de poder de Daenerys Targaryen e Cersei Lannister.

Ambas consolidaram os seus lugares na hierarquia de Westeros há algum tempo: Cersei, como filha de Tywin e mãe do rei sempre esteve a jeito de opinar nas situações relacionadas com o Trono de Ferro; e Daenerys, após três temporadas à deriva num mundo de homens, conseguiu finalmente conquistar um lugar para si em Meereen como consequência direta dos seus ideais abolicionistas.

O interessante, porém, é o quão competentes ambas estas mulheres pareciam à superfície para governar até efetivamente lhes ser concedido um trono de onde o fazer. Apesar da moralidade de Cersei ser altamente questionável, o facto de ser a única mulher no conselho do rei conferia-lhe uma perspetiva fresca que para nós, audiência, parecia sempre mais prudente que as atitudes conservadoras dos homens. Sabíamos perfeitamente que cada movimento político apenas era tomado para o seu próprio proveito, mas seguia sempre um fio condutor lógico próprio à personagem, infalível.

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Cersei é uma mulher pragmática: quando King’s Landing foi invadida durante a batalha de Blackwater, preferiu uma tentativa de suicídio com o seu filho Tommen antes de ser tomada cativa pelo exército de Stannis Baratheon. Foi uma progressão fantástica para a sua personagem e que demonstrou os excessos a que chegaria para proteger a integridade da sua família mas, acima de tudo, a sua. Este tipo de decisões elevaram a sua posição política em relação à de Jaime, um guerreiro, ou à de Tyrion, que acabou preso e quase executado por se opor às maquinações da irmã.

Após a morte de Joffrey e Tywin, e Tommen nada mais que um puto com hormonas aos saltos, Cersei tinha tudo para ser a de facto líder do Trono de Ferro e, consecutivamente, Westeros. Porém, a nomenclatura de Queen Mother face à de Queen Regent é sonante da sua posição encarecida e ameaçada pela rainha mais jovem: Margaery Tyrell.

O mais importante, no entanto, não é a fragilidade do poder de Cersei. Afinal de contas sempre teve as suas decisões questionadas e limitadas pelos homens à sua volta. Agora, a extensão da sua influência nunca foi tão grande como nesta quinta temporada. Portanto, porque é que só tem feito más escolhas?

Legitimar um bando de fanáticos religiosos, prender os membros da única família influente ainda aliada dos Lannister, manipular o seu filho quando já devia saber o poder do charme feminino e abertamente antagonizar a segunda mulher mais poderosa de Westeros; tudo isto foram más jogadas.

Cersei é inteligente: os sparrows não foram banidos séculos atrás por fecharem bordéis ou coisa que os valha. Foram expugnados porque tornaram-se ameaças ao poder real. Esta ação acarreta uma repetição teimosa da história que é curiosa, devido aos ideais tão avant-garde da filha Lannister. Se calhar pensa assemelhar-se assim à crueldade implacável de Tywin, e que pode ser tão respeitada/temida quanto o seu falecido pai? É que está enganada – não há-de faltar muito até o devoto High Sparrow a condenar também pela sua devassidão.

Do mesmo modo, abrir guerra com os Tyrell foi uma péssima ideia: o seu exército é maior, e os seus cofres mais largos. Abdicar da posição mais alta para Margaery seria uma ação sensata, pelo menos até Cersei recuperar o poderio económico dos Lannister. Mas ao que parece está mais preocupada em acelerar o seu domínio do que esperar pacientemente como tem feito até aqui. Bad move, Cersei, bad move.

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Dany, por outro lado, apareceu pela última vez a afirmar o seu controlo em Meereen. Nos livros, a decisão de se casar com Hizdahr zo Loraq é-lhe impingida tanto por Hizdahr (que é mais chato que a putaça na obra de George R. R. Martin) como pelo seu conselho masculino (*). O facto de ser Dany a forçar o casamento para consolidar a sua posição na cidade é uma escolha inspirada pelos criadores da série; enche a personagem de agência narrativa e torna-a ainda mais dona de si e das suas ações.

(*) Vejo Missandei mais como uma diplomata nas páginas do que a amiga íntima que é na série. Por isso adorei o momento em que Daenerys praticamente força a sua conselheira a ter uma opinião e a assumi-la. É raro vermos duas mulheres ficcionais nesta posição, e ainda mais raro é serem ambas tão bem desenvolvidas e deterem as duas personalidades concretizadas ao ponto de as permitirem terem conversas destas.

Mais: não choca com a sua personalidade ou com a evolução emocional que tem tido ao longo destas cinco temporadas. Vimo-la a falhar – e muito – desde que chegou a Meereen; governar não é simples. A maior arma da Mãe dos Dragões (para além destes filhos alados) é o seu idealismo inflexível: a escravidão é errada, ponto, e deve ser abolida a todo o custo. É um ideal nobre, mas um que em Essos significa uma rotura com as tradições e cultura do continente; uma cultura a que Dany não pertence e/ou não entende.

Assumir superioridade sobre um povo é uma questão complexa. E não nos enganemos: Dany está efetivamente acima dos seus súbitos, a exercer um controlo (bom ou mau) sobre eles. Está a moldar os seus costumes e regras; está a criar uma nova nação que corresponde ao seu ideal muito particular de sociedade.

O facto de começar a entender a necessidade de conceder privilégios aos seus inimigos, como reabrir a arena antigamente utilizada para lutas de escravos, significa uma progressão fantástica para Dany como rainha e líder de um povo. Significa que não pretende tornar o seu reino num estado ditatorial à laia do Trono de Ferro, mas de que se preocupa com as necessidades não só de quem está sob o seu controlo mas também de quem opera fora dele.

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Estas duas mulheres são reflexos opostos, mas também são as que, do elenco principal, atualmente detêm a maior esfera de influência na série. É um peso demasiado grande a recair sobre os seus ombros, mas é um que ambas quiseram comportar de sua livre e espontânea vontade.

Cersei parece ter perdido a noção do seu poder ao desligar-se não só da população de King’s Landing (já o fez há muito) mas também das pessoas que lhe são mais próximas, como Tommen ou Jaime, e dos seus inimigos/aliados como os Tyrell ou o seu tio Kevan Lannister. Dany, por outro lado, aprendeu com os seus erros.

Veremos como estas duas mulheres de armas acabam a temporada. Até lá, e obrigado por lerem!

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