Mad Max e o mundo é dos loucos

Destruição, morte, e mais destruição. Carros esbarram uns contra os outros, explosões cobrem o céu azulado e tempestades de areia enchem-nos a vista. Somos assaltados por uma corrente de violência veicular durante duas horas, numa sequência de ação contínua e implacável na sua vontade de nos impressionar. A trilha sonora ribomba nos tímpanos com uma fúria animal, exaltando o som das armas, os berros dos loucos e abafando o entusiasmo gritante de uma audiência que se deixa contagiar pelo êxtase imperioso de um filme completamente desinibido.

Mad Max: Fury Road é 10% argumento, 90% ação desenfreada. Liberta os sentidos da forma mais visceral que alguma vez senti: as sequências de ação surpreendem pela magnitude nunca antes vista (*) e estendem-se até não poderem mais. O deserto pós-apocalíptico torna-se num oásis para esta dança demolidora; uma cacofonia de sons e imagens infinitos e arrebatadores. É um filme destilado até à sua forma mais pura e natural, sem emoções fingidas ou tontarias adicionais.

(*) Não é por acaso que grande parte delas são compostas por efeitos práticos. Numa era apegada na íntegra à divindade artificial que é o CGI, ver algo composto na sua maioria por explosões e acrobacias reais é um sopro de ar fresco. 

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George Miller, o realizador (que já tem 70 anos), preenche o deserto australiano de Mad Max com cores saturadas e energéticas, completamente opostas dos cenários apocalípticos a que estamos acostumados. Não há cinzentos enfadonhos ou castanhos desbotados: tudo é vermelho vivo, laranja sadio, azul meduloso. Cada plano é uma chuva de cores pollockiana crua. As sequências noturnas veiculam uma sensação de terror e admiração genuína que não lembro de sentir desde que Frodo entrou em Moria pela primeira vez.

No entanto, o que brilha mais em Fury Road é a brutalidade do seu poder de imaginação. O mundo em que as suas personagens habitam está repleto de pormenores e detalhes insondáveis que o tornam genuíno; cada acessório, cada pedaço de armadura, cicatriz, carro ou arma tem uma personalidade autêntica, um passado indescritível que é tão real quanto palpável. Um mundo de loucos, em ruína e cujas civilizações regrediram para estratificações primitivas e ditatoriais. Mad Max apresenta-nos as suas castas sem explicações sobrevalorizadas: elas existem porque aquele mundo as criou.

Mas quem criou aquele mundo? Aliás, quem o destruiu em primeiro lugar? Uma pergunta corre sob a pele endurecida desta obra-prima de ação, uma pergunta que se conjuga com os ideais progressivos de uma sociedade perdida na sua testosterona avultada. Quem destruiu o mundo foi o homem. Não o Homem, mas o ser intrinsecamente masculino que já provou vezes sem conta não ser apto para liderar sozinho e desregulamentado.

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Charlize Theron protagoniza Furiosa, uma mulher transgressiva cujo braço esquerdo é um emaranhado de metais enferrujados e cabos cibernéticos. É, efetivamente, a protagonista do filme: o Max de Tom Hardy é quase periférico à história que está a ser contada, um transeunte incauto que se vê envolvido na trama devido a um mau timing endiabrado. Sufocada por uma patriarquia ditatorial, Furiosa luta por se libertar do aperto opressivo de Immortan Joe, o vilão residente de Fury Road.

Esta libertação é mais que um catalisador narrativo; é também uma metáfora contemporânea para a igualdade dos sexos e para a emancipação da mulher em relação ao controlo do homem. Só que em vez de esta comparação se realizar ao estilo de moroso sci-fi, faz-se com um estrondo de violência pungente, sob o pretexto de bárbaras perseguições rodoviárias e tiroteios frenéticos perigosamente mortais.

Apesar da temática bem trabalhada e dos soberbos visuais, Mad Max carece no desenvolvimento das suas personagens centrais e do arco redentor que estas pretendem tomar. Os momentos de pausa que partilham são esclarecedores de uma profundidade emocional enorme, mas as suas interações caem um pouco em falso pois acabam ofuscadas pelos tambores da banda sonora e pelas explosões ensurdecedoras dos infindáveis carros. Não é que o filme seja superficial, longe disso, apenas não permite (ou não me permitiu) uma conexão prolongada com as personagens do mesmo modo que fez com o mundo que criou.

Fury Road é uma obra mergulhada no seu próprio legado, mas irrepreensível no quão moderna se apresenta. É sem dúvida o melhor filme de ação da década, o mais cinético e talvez o mais puro de todos eles. A carnificina sanguinária, a violência psicótica, e a energia de alta octana imiscuem-se na mente de uma maneira irreal.

O mundo é dos loucos, e os loucos somos nós.

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