S.H.I.E.L.D. e a donzela sem apuros

NOTA: Spoilers, claro.

Muito do mérito de SHIELD tem-se apoiado na qualidade das suas guest stars. Por exemplo, o que tornou o final da primeira temporada tão bom foi sem dúvida a representação descaradamente camp de Bill Paxton, assim como o estoicismo de banda desenhada de Deathlok. Agora imaginem estes dois últimos episódios sem a presença de Kyle Maclachlan como Calvin Zabo/Mr. Hyde. Perdiam metade da piada, não perdiam?

Maclachlan tem sido uma presença constante nesta segunda temporada, o que lhe permitiu desenvolver uma série de facetas complexas mas bem demarcadas. Apesar de presenciarmos mais do que uma vez a dualidade violenta e destrutiva de Zabo, não conseguimos deixar de sentir empatia pela sua necessidade de estabelecer uma relação com a filha, Daisy. Todos os momentos que partilha com ela são emocionais pois entendemos o quanto a demanda para proteger a sua família lhe corrompeu o âmago e o transformou na criatura volátil que é Mr. Hyde.

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Zabo foi sem dúvida o auge desta temporada pois é aquele com o arco narrativo mais comovente. Nós, a audiência, acompanhamos a sua transição de vilão desafetado para pai violento e, finalmente, anti-herói conformado. É uma montanha russa de minúcias que Maclachlan veicula na perfeição, quer esteja a destruir o cenário ou a afagar a face de Daisy com uma lágrima no canto do olho. A sua relação com Jiaying é a mais destrutiva de uma série com um sem número de relações destrutivas (olá Ward e Agent 33!), pois a lavagem emocional que a líder dos Inumanos fez a Zabo durou décadas; o bom doutor amava-a tanto que desenvolveu uma dupla personalidade. É de quebrar o coração.

Com efeito, outra das melhores personagens destes episódios foi uma guest star antes de ser promovida para atriz recorrente. Adrianne Palicki como Bobbi Morse/Mockingbird é transcendente na sua inflexibilidade astuta, mais dura que qualquer homem mas invariavelmente feminina. Bobbi não esconde as suas curvas atrás de roupas masculinas, nem age como se se envergonhasse de tudo o que a define como mulher. Por outro lado, também não é uma agente a transpirar sexualidade, que a usa em todas as situações favoráveis como, digamos, a Black Widow faria. Bobbi é apenas uma espia dura de roer, oldschool na sua assertividade mas contemporânea na sua posição inabalável dentro da hierarquia da SHIELD.

Numa cena em que um programa menor teria recorrido ao cliché, Mockingbird vê-se literalmente de mãos e pés atados, sozinha numa sala com uma arma prestes a rebentar os miolos da primeira pessoa a abrir a porta. Em vez de ser salva pelo seu cavaleiro andante, atira-se ela própria contra a bala projetada. É um momento pequeno, mas que representa aquilo que SHIELD tem de melhor: a sua diversidade de personagens.

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E não é somente o facto de no elenco principal encontrarmos tanto mulheres como homens como pessoas de etnias divergentes, mas também o desenvolvimento individual que estas personagens ostentam. May, por exemplo, tem um episódio dedicado a ela que finalmente nos explica de onde vem a sua alcunha de cavalry, ao mesmo tempo que explora as suas ligações emocionais e analisa o receio que sente por super-humanos.  Fitz também teve um arco fantástico, que o tornou subitamente mais complexo ao sofrer de uma deficiência mental; uma consequência direta dos eventos ocorridos durante a primeira temporada.

É de louvar uma série que não se esquece a sua história anterior (como Mack a lembrar-se que Skye, antes de poder nivelar cidades, era uma hacker), mas infelizmente SHIELD ainda tem algumas arestas por limar.

As decisões de algumas personagens tornam-se incompreensíveis e, convenhamos, estúpidas, pois servem apenas para progredir a narrativa. Não são resoluções orgânicas, pelo que se perde alguma da tensão dramática que estas escolhas debilitam. A segunda metade da temporada foi infinitamente pior que a primeira, pois recauchutou território já percorrido no ano anterior (outra SHIELD dentro da SHIELD?). Os morais podem ter sido diferentes assim como os resultados, mas os pontos narrativos foram demasiado semelhantes para não se realizarem aborrecidas comparações.

No entanto este segundo ano permitiu à série desenvolver a sua própria personalidade, abrindo as portas para a resma de Inumanos que vão entrar no Universo Cinemático da Marvel durante os próximos anos. Os últimos momentos de S.O.S. foram sem dúvida entusiasmantes, mesmo que existam com o óbvio propósito de gerar burburinho durante o interregno.

SHIELD tem potencial: as personagens são alegremente coloridas, a ação melhorou ao ponto de ser imbuída por uma estética estilizada, e apesar da narrativa deixar algo a desejar contínua a ter um ímpeto muito particular na forma como resolve os momentos de maior tensão. Espero que permaneça assim e que as audiências continuem a dar uma oportunidade a esta ralé de espiões mal-ajustados.

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