Wayward Pines e casa, doce casa?

Wayward Pines é uma autêntica trip psicadélica. Somos arremessados para um mundo populado por personagens que caminham o frágil limiar da insanidade com um pé dentro e um de fora, e não sabemos em que lado delas nos havemos de fiar. A forma como o primeiro episódio está editado desorienta o espetador pelos diferentes espaços temporais que nos apresenta, mas é uma desorientação agradável pois joga com a nossa curiosidade e emoções de um modo intrigante. Mas afinal, vale a pena ver Wayward Pines?

Ethan Burke (Matt Dillon) é um agente secreto com um passado torturado. Vive com a sua mulher e filho, mas como todos os polícias atormentados teve um caso com a sua arrebatadora parceira Kate Hewson (Carla Gugino). Ao investigar o desaparecimento de dois colegas, tem um acidente que o leva à cidade de Wayward Pines, Idaho. Como é ironicamente óbvio, nada é o que parece naquela cidade. A única ocupante do hospital é uma enfermeira com um parafuso prestes a desapertar, a barwoman com quem Ethan tem uma agradável conversa afinal não existe e é-lhe fisicamente impossível abandonar a cidade. Soa familiar?

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Se soa, é porque é. Tudo desde Twin Peaks Lost vem à cabeça, pelo simples facto de esta ser uma série cuja intriga se baseia no mistério. Ora, o que distingue um bom mistério de um mau é a forma como apresenta as respostas à audiência, e como essas mesmas respostas servem para levantar novas questões e problemas. Felizmente, Wayward Pines parece estar ciente do quão acostumados já estamos à sua premissa rudimentar, pelo que o primeiro episódio nos oferece de imediato um sem número de resoluções para os problemas que coloca.

Isto é bom. É fantástico, até. Cria uma sensação do inesperado ao nos “puxar o tapete” sem aviso. E o melhor é que a série não perde nenhum ímpeto narrativo ao explicar de imediato alguns mistérios, pois tal esquema serve apenas para prender a audiência, faminta de saber o que vem a seguir. O facto de isto resultar é a melhor surpresa, e talvez a razão pela qual a FOX está a postar tanto na sua promoção e na estreia global. Afinal de contas, não queremos que os spoilers internacionais nos estraguem o enredo, não é?

Outro ponto que joga a favor de Wayward Pines é o seu elenco. Terrence Howard é sensacional como o cínico xerife Arnold Pope, o típico good cop/bad cop que pode, ou não, fazer a vida do nosso protagonista um inferno. É uma personagem que pode invariavelmente passar pelo cliché, mas a vivacidade excêntrica de Pope é simplesmente um deleite de presenciar. Melissa Leo também faz os seus turnos desequilibrados ao protagonizar a dita enfermeira quasi-demente do hospital da cidade. Depois ainda temos Carla Gugino, cuja qualidade da representação excede a quantidade de decote que os produtores sem dúvida quiseram ter na série.

Matt Dillon, por outro lado, parece um pouco forçado como protagonista, com a sua voz ríspida quase a passar pela caricatura e as mãos que gesticulam a cada sílaba que Ethan pronuncia. No entanto atrevo-me a dizer que é um over-acting propositado, pois reforça a ideia de que Ethan pode não estar a 100% dos miolos e que os eventos que vemos desenrolar são interpretações da sua realidade instável.

Dito isto, há um grande problema em Wayward Pines. A série lida de uma forma restringida com a sua história, como se temesse apostar totalmente na insanidade off-beat das personagens. O que podia ser algo realmente estranho, surreal e intrigante acaba por se tornar numa narrativa twisty e imprevisível mas que não toma grandes riscos. Numa série como esta, não é suficiente ser-se esparso e inteligente com a quantidade de mistérios; é precisa uma certa originalidade tresloucada ou corre o risco de se estagnar.

De resto, estou intrigado. E sim, vale a pena.

Não percam a estreia mundial na FOX dia 14 de Maio, pelas 23h10.

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