Joe Wright e Orgulho & Preconceito (2005)

A melhor sensação após digerir qualquer obra de arte é a de ser surpreendido. Lês uma crítica ou vês um trailer e formas de imediato uma ideia inabalável daquilo que estás prestes a assistir. Ficas contente quando corresponde às expetativas mas a maior parte das vezes, mesmo que não querias admitir, há sempre algo que fica aquém do pedestal que criaste. A verdade é que essas expetativas acabam por se transformar em autênticos preconceitos, condicionantes da nossa apreciação. Por mais que possam suceder em certos aspetos, falham noutros que se calhar considerávamos mais importantes.

Ora, Orgulho & Preconceito (2005) deu um pontapé às minhas limitadas expetativas.

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O filme é uma adaptação do livro original de Jane Austen, que se passa na Inglaterra do século XVIII. Elizabeth Bennet (Keira Knightley), ou Lizzie, é uma mulher com um desejo de independência cujo sexo e estrato social não permitem alcançar. Quando conhece Mr. Darcy (Matthew Macfadyen), resiste com orgulho ferido à noção revoltante de que se pode estar a apaixonar por ele. Por sua vez, Mr. Darcy é obrigado a ultrapassar o preconceito de se envolver com alguém abaixo da sua classe.

Orgulho e preconceito, efetivamente.

Devo confessar que nunca li um livro da Jane Austen. Por nenhuma razão especial: o meu interesse por clássicos é pouco, e a temática intrinsecamente feminina deste livro em particular sempre me deixou de pé atrás. Em retrospetiva até foi algo positivo; o parecer que eu tenho do filme não está preso a qualquer ideal feminista ou à fidelidade da adaptação em relação ao original. O quão eu gostei de Orgulho & Preconceito deve-se somente ao mérito do filme. E mérito ele tem.

54363Incrivelmente, esta é a primeira longa-metragem de Joe Wright (*). Digo incrível pois não esperaria este nível de virtuosismo cinemático de um realizador novato, a não ser que fosse meio irmão do Tarantino ou algo do género. Orgulho & Preconceito é um filme lindíssimo, com visuais sumptuosos e enquadramentos de tirar o fôlego. Wright gosta das suas tracking shots, nas quais coloca a câmara a dançar por entre as cenas apinhadas de gente, com as personagens a entrar e sair das cenas impecavelmente coreografadas. São este tipo de detalhes particulares ao meio cinemático que podem ser apreciados por qualquer pessoa, seja ela um espetador de domingo à tarde ou um cinéfilo acérrimo.

(*) Cuja retrospetiva da sua carreira iniciamos com este artigo. Pan há de chegar lá para Outubro se não voltar a ser adiado, e eu mal posso esperar por ver o Hugh Jackman em algo que não seja outro filme dos X-Men.

Mas não é apenas a elegância da cinematografia a brilhar nesta magnífica adaptação. O elenco, que ainda é extenso, tem uma química muito peculiar: Donald Sutherland e Judi Dench, por exemplo, aparecem muito poucas vezes mas sempre que o fazem é para nos puxarem os cordelinhos das emoções. No entanto, é a representação encantadora de Keira Knightley a roubar todas as cenas em que está presente. Lizzie é uma mulher belíssima, com opiniões e vontades mas também defeitos e uma personalidade complicada. Knightley veicula todas estas camadas da personagem com uma perícia natural que não me permite imaginar mais alguém naquele papel.

O que mais me surpreendeu não foi o romance central que, verdade seja dita, corresponde de forma medíocre ao que se esperava, concluindo num final perfeitamente competente mas um pouco apressado. Não, o que mais me surpreendeu foi o humor do argumento, os momentos de leveza alegre que advêm das interações animadas e apaixonadas entre as personagens. É difícil não gostar de algo que te deixa com um sorriso constante do início ao fim.

Infelizmente, o mais irónico de toda esta conversa é o quão complicado será o filme corresponder às expetativas que devo estar a criar. Mas não interessa. Orgulho & Preconceito também é irónico na maneira como destrói qualquer, ahem, preconceito em relação ao filme com a sua obstinada boa disposição. É algo para apreciar com os sentidos e com o coração. Recostem-se no sofá, quem sabe com a vossa própria Lizzie ou Mr. Darcy, e deleitem-se.

Aliás, surpreendam-se.

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