Força Maior e o ego masculino

Força Maior quebra uma das regras incontornáveis do cinema clássico ao produzir o seu clímax nos primeiros 10 minutos. Ebba e Tomas, o casal protagonista do filme, senta-se à mesa de um restaurante com os seus filhos quando uma avalanche controlada desce violentamente as montanhas adjacentes. O pânico gera-se e Tomas desafia a percepção masculina ao fugir do perigo em prol da sua sobrevivência, abandonado a sua família. Felizmente é apenas fogo de vista: a avalanche termina antes de alcançar o restaurante e tudo o que chega é névoa gélida e cerrada.

Ruben Östlund, o realizador, utiliza esta situação para analisar os papéis tradicionais do homem e da mulher de família, assim como os preconceitos que a sociedade civilizada tem em relação às funções de ambos os sexos. Mas enganam-se se pensam que isto é uma aula de sociologia barata; Força Maior possui uma adversa corrente de humor negro que preenche todas as cenas com uma tensão elétrica e enervante.

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Muita desta veia desopilante saída de um Levanta-te e Ri ainda mais cínico vem do controlo quase kubrickiano que Östlund tem na realização. Enquadramentos parados retirados de um qualquer filme do Michael Haneke parecem, a primeiro contacto, tão lentos e aborrecidos como os do austríaco, mas são tão cheios de pessoas e de cor, com uma composição clássica de linhas e perspetiva em profundidade que não podemos deixar de nos sentir empolgados com o que está a acontecer no ecrã. Não são complexos, mas sim arrebatadores.

As próprias personagens movem-se e falam com uma energia intensamente vívida; o facto da câmara escolher apenas um ponto de vista permite-nos apreciar a cena como autênticos voyeurs de um qualquer reality-show. As cores são um aspecto peculiar apesar de óbvio: como podem reparar na imagem acima, Tomas usa um casaco azul enquanto a mulher enverga um pullover rosa. Estas duas cores são replicadas ao longo de todo o filme, e são claras representantes desta dualidade temática que a narrativa pretende colocar em ênfase.

É esta destilação das relações conjugais que confere a Força Maior uma personalidade interessante pelas questões que nos são colocadas. Como é que nós reagiríamos numa situação semelhante? Fugíamos e abandonávamos a nossa família, ou protegíamos-los a todo custo? E de que forma é que o nosso género sexual (assim como as percepções que lhe são associadas) nos influenciaria? Se calhar gostamos de dizer que poríamos a segurança da família à frente da nossa, mas é essa a honesta verdade?

Força Maior peca por ser demasiado óbvio e comprido, ou por dedicar algum tempo desnecessário a personagens secundárias sem tanta importância narrativa, mas a sua competência formal, a sua trilha sonora unicamente composta por estouros aleatórios de Vivaldi, e o interesse contemporâneo da sua temática acabam por o tornar imperdível.

Colorido, desafiante, com um humor cruel e apinhado de situações incómodas, este é um dos filmes que aconselho a irem ver durante a Festa do Cinema, de 11 a 13 de Maio.