Brad Bird e Ratatouille (2007)

Preparado, confeccionado e servido pelos grandes senhores da Pixar, na sua segunda colaboração com o master chef Brad Bird, Ratatouille (2007) soube-me quase cru, ou então aquecido à pressa por um qualquer microondas universitário. Teria sido melhor servido com um cheesburger ordinário vindo de um McDonalds aleatório. Não seria queijo francês, e podia ter ratos na mesma, mas estaria, na sua totalidade, muito melhor composto que este filme.

Remy, um rato que é e não é a personagem principal de Ratatouille, sonha em se tornar um reconhecido chef francês. Supostamente está dividido entre a cultura iletrada da sua família roedora e a civilização altamente intelectual da cozinha francesa, cujos costumes são ditados pelo crítico snob Anton Ego (vem de ego, do tipo freudiano).

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Na página é uma boa história. Sempre que um grande escritor ou cineasta se lembra de colocar em choque estas duas culturas divergentes mas que não existem separadas entro em êxtase: é um tópico social pelo qual me interesso e opino constantemente. Afinal, Barton Fink (1991) é um dos meus filmes favoritos. Infelizmente, a coisa não corre tão bem aqui: assim que o argumento perde o foco em Remy e passa a batata quente para Linguini (o seu compincha humano), o filme desaba sob o peso dos diferentes pontos de vista, quer narrativos, quer visuais.

Brad Bird continua a ter um naco para enquadramentos fora do normal e interessantes, pelo que compor a primeira parte do filme de um ângulo de visão particular a Remy foi uma escolha fantástica. Tudo parece enorme e colossal, somos transportados para um mundo animal que se opõe ao humano pelo quão diminuto torna Remy e a sua demanda.

Este protagonista é levado a cozinhar devido ao seu descomunal sentido olfativo, mas também porque se sente inspirado pelo mote do seu chef favorito: ‘anyone can cook’. A mensagem tem um grande ímpeto emocional, pois é suficientemente ampla para hegemonizar os sonhos de qualquer pessoa, como particular q.b. para denominar o ato de cozinhar em si. Torna a temática bem instruída e direta, o que é uma mais valia num filme com tantas personagens que não vão a lado nenhum, e com dois vilões em que só um é na íntegra bem desenvolvido.

O maior problema de Ratatouille reside nesta complicação desnecessária da narrativa, que acaba por não dar ar para as personagens e os seus arcos narrativos respirarem. A família de Remy, por exemplo, tem pouco mais do que duas ou três cenas essenciais até ao clímax do filme, tornando-as autênticos esboços colaterais, que apesar de servirem o conflito em questão não o informam como deviam.

Linguini também é problemático no sentido que não tem qualquer personalidade ou peso narrativo, com as suas ações a serem ditadas ou por Remy, ou pela sua paixão inexplorada por Colette, ou pelo próprio macguffin que é a herança deixada pelo seu pai.

Ratatouille pensa que pode atar todos os fios do filme num nó perfeito com a confissão final de Ego (protagonizado de forma fantástica por Peter O’Toole), mas acaba por bater um pouco no vazio pois o filme não teve o desenvolvimento necessário para existir uma resposta emocional autêntica por parte da audiência.

É que nem com fome me deixou.

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