Ex Machina e a empatia

A primeiro, pode parecer que Ex Machina se propõe a responder à pergunta seminal: pode uma inteligência artificial realmente distinguir-se e/ou aproximar-se da humana? No entanto, o que filme acaba por fazer é desconstruir aquilo que define esta inteligência em particular. É um twist inteligente, pois vai para além dos clichés colocados tão desajeitadamente por filmes recentes como Chappie, tornando a pergunta muito mais pessoal e menos abstrata.

Alex Garland, o realizador, cria um mundo de ficção-científica lo-fi, ao estilo de Her (2013), em que o futuro se insere numa realidade mais contemporânea do que aquela que gostaríamos de admitir. Ao afastar-se de cenas de ação repletas de CGI e de grandes explosões mágicas e alienígenas, Ex Machina prefere o desenvolver das suas personagens e o discorrer emocional consequente das suas interações.

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A história, de um modo resumido, é sobre Caleb Smith (Domnhall Gleeson), um jovem programador que é seleccionado para participar numa importante experiência científica ao ter que avaliar as qualidades humanas de uma atraente inteligência artificial chamada Ava (Alicia Vikander). O local onde a experiência se efetua é remoto, e o cientista responsável, Nathan (Oscar Isaac) esconde mais do que aquilo que quer revelar.

A intensidade de Isaac neste papel é tão carismática que se torna impossível não ficar imediatamente intrigados com a sua personagem. Qual é o propósito da sua experiência? O que é que ele quer com Caleb? Estas perguntas vão sendo colocadas pela própria personagem ao ritmo que o espetador começa a ponderar sobre elas, evitando a frustração de nos adiantarmos à própria narrativa. Alicia Vikander como Ava é igualmente magnética; Garland enfatiza a sua sensualidade e erotismo de forma magistral ao tratá-la de acordo com as necessidades do enredo.

Apesar de Ex Machina se focar na relação entre as suas três personagens principais (*) e no seu desenvolvimento emocional, não arrasta desnecessariamente a história nem aborrece o espetador. Há uma cena maravilhosa a meio do filme em que Nathan dança com uma das suas criações sob uma luz néon vermelha que me encheu de uma cacofonia de emoções contraditórias; ri às gargalhadas no meio do cinema ao mesmo tempo que me emocionava com a solidão oh-tão-humana do cientista.

(*) Que estabelece um paralelo religioso com as figuras de Deus (Nathan), Adão (Caleb) e Eva (Ava) ao mesmo tempo que cria um discurso em torno da sexualidade intrínseca ao Homem. Afinal de contas, será que teríamos o impulso para o diálogo, para interagirmos uns com os outros se não fossemos impelidos por uma necessidade primordial de amar e sermos amados? Ou, de modo mais crasso, de foder e sermos fodidos?

No final, as respostas tornam-se um pouco secundárias ao clímax violento do filme e as próprias personagens devolvem para arquétipos delas mesmas, retirando alguma da subtileza inteligente de Ex Machina em prol de sensações mais viscerais. Mas tal não debilita o filme por completo: a trilha sonora é atmosférica e elétrica na maneira como veicula as emoções, e a cinematografia de Rob Hardy é comedida mas precisa.

Original, inventivo e repleto de bons momentos, Ex Machina é um excelente debut de Alex Garland na realização, assim como um fantástico filme de ficção-científica pseudo-futurística.

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