Daredevil e os ossos partidos

Estreou há duas semanas na plataforma web Netflix a nova série do cada vez mais expansivo Universo Cinemático Marvel (MCU): Daredevil ou, como a personagem é conhecida em português, O Demolidor, desta feita protagonizado por Charlie Cox e não o abominado Ben Affleck. Mais charmoso que nunca, Cox confere ao Diabo de Hell’s Kitchen uma fragilidade e complexidade moral e católica que careciam na sua anterior adaptação.

O que distingue Daredevil das restantes entradas no MCU é certamente a violência gráfica e selvagem com que se apresenta imediatamente nos primeiros episódios. O marcado estilo visual é igualmente deleitoso, pontuando a noite de Hell’s Kitchen com néons vermelhos e luzes amarelas torradas, em vez do tom acinzentado e aborrecido que permeia outra das séries da Marvel, Agents of SHIELD.

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A cinematografia é belíssima, com esta elegância colorida a contribuir para as cenas de ação bem coreografadas e filmadas. Phil Abraham, o realizador dos primeiros dois episódios, oferece-nos no final do segundo uma cena de pancada num corredor com um só take, ao estilo de Oldboy (2003), em que Demolidor enfrenta metade da máfia russa sozinho para salvar uma criança. Os stunts são mais complexos e bem construídos do que muitos filmes de ação modernos; é verdadeiramente inédito para uma série de ‘televisão’.

Vincent D’Onofrio, conhecido pelo seu papel de militar perturbado em Full Metal Jacket (1987), protagoniza Wilson Fisk (ou Kingpin), concedendo uma aura de estranheza e ameaça que muitas vezes falha nos filmes da Marvel. O ator torna Fisk mais profundo e humano do que um vilão normalmente é, chegando até a estabelecer uma relação de empatia com a audiência que nos leva a confundi-lo com o herói da estória. A sua relação com os seus súbditos (a máfia russa, os Yakuza, narcotraficantes chineses) e com a sua amada Vanessa é talvez o ponto mais interessante da série pelos diferentes espectros de emoção que D’Onofrio representa.

Infelizmente, a mestria cinemática e performativa de Daredevil não se traduz na qualidade do argumento. Todas as cenas são pelo menos dois ou três minutos mais longas do que o que deviam, assim como os episódios em si. O formato de 13 horas não serve a intriga da melhor forma, já que estende certos arcos narrativos sem necessidade e atrasa o desenvolvimento das personagens até que estes se tornam aborrecidos. Diria que 10 episódios estruturados para 40 minutos cada seria o sweet spot da coisa; não abusa da sorte e permite um aprofundar mais extenso do que um filme de duas horas.

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O tom também não é o melhor, caindo demasiado para um lado noir que os atos superheróicos da personagem original não pedem (cadê a visão radar?). O experimentalismo da estrutura narrativa que se nota na primeira metade da temporada praticamente desaparece na segunda metade com o adensar previsível do enredo. As personagens basicamente estacam até ao décimo episódio, com algumas das mortes a perderem o impacto emocional que necessitavam pelo quão constrangidas são ao maniqueísmo dos argumentistas.

Foggy Nelson (Elden Henson), o companheiro advogado de Demolidor, é o exemplo mais óbvio. Para ser sincero, só está lá para encher chouriços. O tom de comic relief desregulado entra em choque com a corrente sorumbática da série, e Henson parece um autêntico palhaço desajeitado quando quer ter piada. O ator não tem toda a culpa: os plots em que Foggy se envolve não vão a lado nenhum e são, na sua maioria, intoleráveis. O seu único propósito é caracterizar Demolidor por aproximação, o que não faz serviço nenhum à personagem.

Quem está à espera do Arrow da Marvel, aqui o tem. Quem quer algo mais complexo e adulto que a potencialidade desaproveitada de Agents of SHIELD, voilà. E quem gosta de estórias de crime violentas e de ação exímia na brutalidade que oferece, encontra-as em Daredevil. Não é uma série perfeita, mas é suficientemente sólida para entreter durante uns dias e acelerar os meses entre outras apostas no Universo Cinemático.

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