5 Filmes de Crime dos últimos 5 anos

O milénio já vai na sua segunda década, e quase que conseguimos estabelecer um fio condutor evolutivo do filme de crime desde o seu início. De modo lato, pode-se dizer que a popularidade de filmes dos anos 90 como Goodfellas e Pulp Fiction, ou a série de 1999 The Sopranos, impulsionou o que então veio a estabelecer-se dentro de duas categorias.

Uma delas é o filme de gangsters, mafiosos, influenciado pelo estilo de Martin Scorsese com ensembles grandes e coloridos, diálogos de época ou com gíria italiana, russa e irlandesa (consoante a máfia) e a inescapável violência. Road to Perdition (2002), The Departed (2006), American Gangster (2007), são todos exemplos desta moda cinemática, apesar de pedirem emprestado a géneros como o noir algumas características mais particulares.

A outra é mais ecléctica e indefinida, vinda dos inúmeros clones de Tarantino que surgiram. Layer Cake (2004), Rocknrolla (2008) e semelhantes funcionam dentro do mundo fragmentado e espertalhão que Tarantino popularizou nos seus filmes de crime. A verdade é que estas duas categorias se sobrepõe de alguma maneira, e é essa sobreposição que tornou a primeira década de 2000 um pouco estagnante na inovação.

Nos últimos anos temos assistido a uma maior aposta por parte de realizadores menos conhecidos, ou esquecidos, e com vontade de (re)afirmar a sua voz no mundo do cinema. Os filmes que se seguem continuam a ter gangsters e narrativas serpentinas, mas vão buscar as suas influências a outras épocas e artes, como a música dos anos 80, à filosofia capitalista ou à psicologia sociopata da sociedade contemporânea.

1. Drive – Nicolas Winding Refn (2011)

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Drive é dos filmes mais viscerais e violentos que já vi. Metódico e pragmático, detém um controlo sublime sobre a direção da narrativa e das ações das personagens, dirigindo-as uma a uma com um detalhe incrível. Ver o filme é quase como assistir a um jogo de xadrez; só que com sangue, carros, cabeças esmagadas e o Bryan Cranston a ser mais que um cozinheiro de metanfetaminas.

Ryan Gosling faz o papel de Driver, um protagonista praticamente silencioso, que faz stunts de viação para Hollywood por dia e conduz carros de assaltantes à noite. Trabalha como getaway driver, mas recusa-se a envolver no crime em si. O seu mote: “I don’t carry guns. I drive.” É um homem estóico, na veia dos John Fords e Clint Eastwoods de outrora; uma corrente masculina pouco em voga quer na realidade de hoje quer no cinema.

Nicolas Winding Refn é dos realizadores mais visuais a trabalhar na área hoje em dia, pelo que Drive tem dos enquadramentos mais bem compostos dos últimos tempos, assim como das cenas mais bem iluminadas. Para além disso, a trilha sonora composta por Cliff Martinez revigorou o género, com um ar retro dos anos 80 e as synths sonantes de uma época passada a contribuir para o ar nostálgico e melancólico que percorre o filme.

O pastiche de influências que Winding Refn reuniu resultaram numa das melhores peças cinematográficas desta década, e uma das quais revisito constantemente.

2. Filth – Jon S. Baird (2013)

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Se só assistirem ao trailer de Filth antes de o verem vão pensar que é uma comédia áspera e tresloucada, baseada noutro livro daquele gajo que nos trouxe o Trainspotting. E, por um lado, não estariam enganados. Mas a verdade é que Filth é muito mais que isso, é muito mais que outra adaptação de Irvine Welsh ou uma comédia policial inconsequente: Filth é um drama poderoso, que se desdobra em sátira social.

Bruce Robertson (James McAvoy) é um Detetive escocês; um homem manipulativo e misantrópico que sacia o vazio emocional deixado pela sua mulher (que o abandonou) com drogas, álcool e relações sexualmente abusivas. Ao longo do filme somos expostos à sua moralidade anormal e perverso sentido de justiça e ordem, assim como a situações bizarras que passam por conspirações maçónicas, bestialidade e transsexualidade, até sequências lynchianas de sonhos.

Jon S. Baird faz do seu segundo filme um candidato a culto instantâneo, e traz-nos a melhor performance de James McAvoy em anos. Determinada, emocional mas, acima de tudo, excêntrica e grotesca, a representação do ator é como Filth em si: sórdido e indecente.

3. Killer Joe – William Friedkin (2011)

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William Friedkin é conhecido pela sua contribuição para os géneros de thriller e terror com The French Connection (1971) e O Exorcista (1973). Estes dois filmes catapultaram-no para o lugar dos melhores realizadores da época, e ainda hoje são reverenciados como obras primas do género, conhecidos e vistos por todos. Tal é a sua influência que a maior parte das cenas de terror hoje são influenciadas pelo O Exorcista, assim como perseguições de carros devem muito a The French Connection.

Ora, desde aí que o realizador parece ter sido esquecido pelo público geral. Killer Joe é a sua longa-metragem mais recente, lançado numa altura em que Matthew McConaughey ainda estava a redefinir a sua persona de ator assim como a sua carreira. Aqui, faz o papel de “Killer” Joe Cooper, um polícia corrupto que aceita trabalhar como hitman sob o contracto de Chris (Emile Hirsch) para matar a sua mãe.

Resta dizer que nada corre como esperado, e a construção lenta mas segura da narrativa conduz-nos a um desfeche aterrador. A última cena é nojenta ao mesmo tempo que nos fascina pelos seus acontecimentos bizarros. Somos incapazes de desviar o olhar por mais que queiramos; os movimentos de câmara impedem-nos de o fazer. Killer Joe é uma história negra de crime, pontuada por humor sarcástico e erupções violentas com um dos melhores finais do cinema moderno.

4. Killing Them Softly – Andrew Dominik (2012)

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Recebido mal pelas audiências e pela crítica especializada, o filme mais recente de Andew Dominik foi acusado de falta de subtileza e de uma realização demasiado notável que toldou a leitura do resto da longa-metragem. O que, para mim, foi só um monte de tretas americanas para não aplaudirem uma peça excelente de cinema que se desdobra numa crítica ao capitalismo ocidental e ao sistema político republicano/democrático dos Estados Unidos.

Com representações carismáticas por atores de calibre como Brad Pitt, James Gandolfini e Scoot McNairy, Killing Them Softly retrata as consequências de um assalto a um jogo de cartas ilegais nuns compactos 97 minutos. Cada cena leva à próxima sem cortes incongruentes, empilhando-se numa cadeia de assassínios e traições violentas e poéticas na sua realização. As cenas são tensas e bem construídas, excelentes exemplos de como tornar conversas ordinárias entre duas personagens em diálogos interessantes e essenciais para a narrativa.

As intrigas desta máfia californiana são reflexões das da camada política americana, sendo a veia temática do filme gritante da semelhança entre as duas classes profissionais. Jackie Coogan (Brad Pitt) não é nada mais que um whip político, pois assegura-se de que tudo no seu sistema económico está a funcionar na perfeição, preferindo matar as pessoas à distância de modo a não sentir empatia por elas. Tal como, é inferido, os presidentes em si: não são insensíveis aos males da população, apenas preferem o alto da sua torre de marfim aos problemas reles da plebe.

5. Nightcrawler – Dan Gilroy (2014)

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O filme que foi roubado de melhor argumento original pelo hit imparável de Alejandro Gonzales Iñarritu, Nightcrawler é uma história actual de crime, ascensão social e económica numa altura em que ela é ilusoriamente impossível. Jake Gyllenhaal faz o papel de Lou Bloom, um jovem aspirante a qualquer coisa, qualquer coisa de todo que o permita subir na vida.

Por um lado é um espelho da sociedade sociopata que a despersonalização dos media e da violência tem construído, por outro é o retrato do entreprenur moderno, o empresário do futuro que soa lágrimas e sangue para atingir os seus objetivos. Podemos traçar a narrativa de Nightcrawler como uma de ascensão e queda, apesar de que sem esta última parte.

A história de Lou Bloom é uma negra e mórbida, atravessada por uma corrente de niilismo intemperado. Tocando em temas como a aprendizagem pela internet, o papel dos media televisivos num panorama que cada vez quer menos saber deles, e do constante desempregado que o capitalismo parece criar, Nighcrawler é um filme de crime para a geração do novo milénio. Intenso e original.

(1) Esta lista está por ordem alfabética 😉

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