The 100 e a melhor série que ninguém está a ver

Acabou há umas semanas The 100, a série pós-apocalíptica do canal americana CW. Com pouco mais de um milhão de visualizações lá e, certamente, muito menos cá (*), é das menos bem sucedidas de um canal definido actualmente pela dinamização dos superheróis da DC Comics no pequeno ecrã, com The Flash, Arrow e uma nova série por chegar. É impressionante ter conseguido uma terceira temporada neste panorama, visto que os produtores do CW parecem estar focados em tornar ainda mais expansivo este universo DC.

(*) Falo proporcionalmente. Os magnatas televisivos portugueses ficariam impressionados com o número de compatriotas que recorrem a meios menos legais para verem séries como Game of Thrones, True Detective ou mesmo a recém-chegada The Flash. Passar as coisas meio ano depois da sua estreia já não é um modelo de negócio viável, mas isso é matéria para outro artigo.

Como agravante, a visualização até parece ter vindo a descer, começando com 2.73 milhões no primeiro episódio e acabando em 1.34. Não seria errado dizer que esta confiança em renovar um programa para uma terceira temporada nestas situações se deve à recepção crítica extremamente calorosa que tem tido.

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Então o que torna The 100 tão especial? Seria de pensar que a série nem é grande coisa, tendo em conta a queda de metade da audiência em duas temporadas relativamente pequenas – o normal para o canal são 22 episódios; a primeira temporada de The 100 teve 13 e a segunda 16. No entanto, seria um pensamento errado, porque é certamente o programa de ficção mais complexo do canal, com as melhores personagens (ainda que não as mais populares) e as mais performances mais subvalorizadas.

Talvez seja essa complexidade a alienar metade dos espectadores, porventura à espera de algo mais virado para a ação desproporcionada de Arrow ou para o bromance seminal de Supernatural. É uma questão válida, principalmente porque sou da opinião que The 100 não pertence ao CW. O canal é conhecido por tornar os seus programas ‘juvenis’, forçando triângulos românticos, contratando jovens com bom físico e atraentes, assim como por ter o terrível hábito de encher algumas cenas com músicas contemporâneas como a “Radioactive” dos Imagine Dragons.

Tudo isto serve para atrair o público que melhor serve ao canal; o que acontece é que esse público não é o mais indicado para ver The 100. A série passa-se 97 anos após uma guerra nuclear ter dizimado a população da Terra e impedido a sua sobrevivência, obrigando a humanidade a migrar para o espaço em naves espaciais. O primeiro episódio trata do retorno ao planeta dos ditos 100, neste caso jovens delinquentes cujos crimes lhes valeram o exílio para a terra de origem dos seus antepassados.

É criada, assim, uma interessante divisória: os jovens são expugnados para confirmarem a sobrevivência no solo terrestre, ao mesmo tempo que iniciam a construção de uma civilização ao estilo de Lord of the Flies; os adultos, por outro lado, ficam nas suas naves, com as suas políticas e traições e escolhas difíceis que nunca correm bem. O espectador é confrontado deste modo com duas maneiras de vida, duas filosofias conflituosas que nos levam a uma temática milenar: o choque de gerações.

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É o desenvolvimento paralelo destas duas civilizações que carrega muito do peso dramático da primeira temporada em particular. Para além disso, os 100 descobrem que não estou sozinhos na terra e entram num conflito involuntário com esta facção terrestre, que se sente invadida e só quer defender o seu território. É aqui que a série brilha, funcionando como uma exploração profunda e devastadora dos efeitos da guerra no Homem, assim como assuntos como a eficiência dos métodos de tortura e as diferenças culturais que muitas vezes levam a conflitos desnecessários mas inevitáveis.

A verdade é que The 100 trata de ataques terroristas e um estado de guerra constante de uma maneira mais profunda e talvez realista (mesmo sendo ficção científica) do que séries como Homeland ou Tyrant, que se estabeleceram como proponentes deste tipo de explorações temáticas mas acabaram por ser pouco mais do que novelas com pedigree. Apesar dos atores mais novos nem sempre fazerem o melhor papel – não há Maisie Williams ou Jack Gleesons – e do argumento tornar muitas das personagens em autênticos carrosséis emocionais, a verdade é que estas acabam por ser extremamente bem formadas e tridimensionais.

As relações que se vão formando ao longo dos 29 episódios são complexas e de uma tensão importantíssima para entendermos as complicações que surgem a nível político quando queremos respeitar os nossos ideais mas ao mesmo tempo sabemos que nunca o vamos conseguir fazer. É uma dualidade que talvez só tenha visto explorada a esta escala em Game of Thrones, e essa é uma série da HBO adaptada do trabalho exímio de George R. R. Martin e da sua pesquisa histórica extensiva, não uma adaptação de um par de reles livros juvenis que ninguém conhece.

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Fora temáticas intrincadas e assuntos profundos, o que mais me agrada na série é o seu elenco gigante e variado. Devido à guerra nuclear, as raças foram-se misturando no espaço, pelo que quando voltam à terra temos um número avultado de etnicidades distintas. Nos papéis principais existem apenas dois ou três homem de raça branca, sendo os restantes mulheres, asiáticos, negros, peruanos, gregos e mestiços.

No entanto, a etnicidade não é um pormenor que se aborda na narrativa: é um dado adquirido, um acontecimento natural. Ninguém descrimina ninguém pela sua cor da pele, convivem todos numa relativa harmonia em termos raciais que não só é agradável de um ponto de vista pessoal, como uma brisa de ar fresco no panorama geral televisivo que até há uns tempos era praticamente restrito ao homem branco.

A escrita não é só progressiva neste aspecto: a maior parte dos lugares de poder na Terra são ocupados por mulheres (por outro lado, no espaço, são os homens a dominar o decadente governo), cada uma mais forte e complexa que a outra, com os seus próprios objetivos, necessidades e defeitos. Isto não é para dizer que só as mulheres são bem servidas em termos narrativos; o importante é que são-no tanto quanto os homens. E, de novo, ninguém comenta este facto ou sequer o desconsidera: é apenas uma prática comum, um bem reconhecido. The 100 é talvez a série que melhor tem integrado ideais igualitários assim como pontos de vista progressivos e de união racial, ainda que comentando nos conflitos culturais (friso, culturais, não raciais) que afligem o nosso mundo na atualidade.

Perdoem-me este artigo talvez demasiado comprido mas The 100 é uma série com tantas camadas e mesmo assim com um charme jovem e incomparavelmente diligente nos seus temas que não posso deixar de a abordar em extensão. Resta-me esperar que comecem a ver e a partilhar, porque se há algo que as gerações mais novas devem começar a ver é sem dúvida The 100.

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