TV & Cinema – A primazia televisiva

2º artigo na nossa análise do cruzamento no mundo cinemático e televisivo. Podem encontrar o primeiro aqui.

6457848Falámos previamente de como grandes nomes de Hollywood decidiram arriscar no pequeno ecrã, e de como a ficção neste se tornou mais séria, exploratória e inovadora do que muito que se passava nas salas de cinema. Portanto, antes de traçarmos uma linha cronológica desta evolução, vamos focar-nos na era presente e no que a definiu.

Foi por volta de 2007 que começou a surgir a nova onda de séries de TV, consolidando assim o panorama revolucionário que as do início do milénio iniciaram. Breaking Bad, Mad Men, Game of Thrones, Dexter e Boardwalk Empire cimentaram (*) o estatuto artístico que o meio televisivo tem ganho na última década, e com razão. Estas séries asseguraram nomes de realizadores como Martin Scorsese, Neil Marshal e Rian Johnson; atores de Hollywood como Steve Buscemi, Danny Trejo, Julia Stiles e John Lithgow, estabelecendo com sucesso uma ponte entre os dois meios audiovisuais que desde então tem sido replicada.

(*) Não esquecemos que Lars von Trier tem a conhecida série The Kingdom no seu bolso, apesar de ser uma vinda deste lado do oceano. Ou que David Lynch ousou Twin Peaks em 1990 numa época de relativo marasmo criativo em ambos os meios. Mas apesar de casos semelhantes certamente terem proporcionado uma evolução mais linear, não foram eles a catapultar o meio televisivo para o estrelato a longo-prazo.

É de realçar o facto de que a legitimação da arte televisiva só é falada quando associada a nomes consagrados do cinema, como se fosse essa passagem de um meio para o outro que o tornasse de melhor qualidade e, portanto, digno de ser apreciado como algo artístico.

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A verdade é que, aos olhos do público, é essa a situação. Por outro lado, realizadores e atores de renome só migrariam para um meio inferior se tivessem uma razão plausível; não apostariam as suas carreiras num salto que lhes poderia correr mal. É a qualidade assegurada dos produtos televisivos em questão que incita esses artistas a arriscar no mundo televisivo. Martin Scorsese só aceitou realizar e produzir a série Boardwalk Empire porque a visão e o argumento do escritor Terrence Winter era infalível e de uma habilidade estonteante; John Lithgow só concordou em trabalhar na quarta temporada de Dexter porque a personagem que para ele criaram era complexa e de uma nuance psicológica tal que permitia ao ator fazer o melhor uso dos seus músculos artísticos, por assim dizer.

Muita desta profundidade de caracterização de personagem e narrativa que tanto atrai os bigshots de Hollywood deve-se ao formato televisivo, que só nesta última década tem atingido o ápice do seu potencial. Acompanhar as mesmas personagens semanalmente, em episódios de quarenta minutos a uma hora completa (e, por vezes, excedendo a própria hora), permitem aos argumentistas e realizadores contar histórias maiores e mais complexas do que a maior parte dos filmes de Hollywood se atrevem a explorar.

A transformação de Walter White, a personagem principal de Breaking Bad, de mero professor de física mal-pago para senhor do crime fabricante de metanfetaminas não seria possível ou, pelo menos, não teria o mesmo impacto se fosse contada em duas horas num grande ecrã. Ao longo de seis anos, durante 62 episódios que constituem quase o mesmo número de horas, acompanhámos o declínio moral de um homem de forma brilhante, algo que simplesmente não possuiria a mesma carga emocional num filme truncado de Hollywood.

A oportunidade dos atores protagonizarem um papel semelhante é o que mais os tem aliciado a passar para a televisão. Matthew McConaughey em True Detective (2014), Kevin Spacey em House of Cards (2013), Clive Owen em The Knick (2014). Atores de renome, vencedores de Oscars e outros prémios bem estabelecidos no panorama público aventuram-se cada vez mais em território novo.

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Estas superproduções aproximam-se progressivamente a nível monetário dos grandes blockbusters de Hollywood, e à medida que a tecnologia se torna melhor e mais barata, efeitos especiais como os que estávamos habituados a ver somente nas telas de cinema chegam mais facilmente à nossa pacata sala de estar.

Por outro lado, o sentido também se inverte. Os próprios festivais de cinema começam a integrar séries televisivas nos seus programas de mostragem, um testamento à qualidade da ficção do pequeno ecrã que passa a ser digna de ser mostrada em telas antes exclusivas a filmes.

O primeiro a fazer tal experiência foi o Toronto Film Festival. O próprio director do festival, Cameron Bailey, diz que “as barreiras entre Cinema e Televisão estão a desaparecer”, de modo a que não acha desapropriado mostrar no seu festival algo como o drama televisivo Southcliffe, realizado por Sean Durkin, mais conhecido pelo seu filme de 2011 Martha Marcy May Marlene que também passou no circuito de festivais de Toronto. Dois episódios de Game of Thrones também foram recentemente exibidos em IMAX nalguns cinemas, esgotando todos os bilhetes em venda.

A linha que separava ambos os meios desvanece; abre-se um novo capítulo na história de ambos.

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