Brad Bird e O Gigante de Ferro (1999)

A jeito de antecipação do novo filme de Brad Bird, Tomorrowland (2015), a estrear já no dia 28 do próximo mês de maio, iniciamos uma retrospectiva da sua carreira cinematográfica. Bird ganhou um gosto pela animação desde cedo, trabalhando na área para a Disney e como consultor durante as primeiras 8 temporadas dos Simpsons, ajudando a desenvolver o seu característico estilo de animação.

Assim, o realizador iniciou-se com um vídeo de música para a canção Do the Bartman, escrita pelo próprio Michael Jackson para um álbum de compilação da série animada. Dirigiu alguns episódios antes de migrar em 1999 para o grande ecrã, com a sua primeira longa-metragem O Gigante de Ferro.

Apesar de não ter sido bem recebido pelas audiências, sendo um flop no box office, o filme de animação é hoje considerado um clássico moderno. Até à relativamente pouco tempo nunca o tinha visto, torcendo um bocadinho o nariz à animação ultrapassada de estilo americano. Mas a verdade é que já não se fazem filmes assim.

534534634O Gigante de Ferro conta-nos a história de Hogarth Hughes, um jovem solitário e curioso, órfão de pai e com uma mãe trabalhadora. Numa das suas brincadeiras noturnas encontra o dito gigante de ferro, com o qual vai travar uma amizade ao mesmo tempo que militares americanos investigam a cidade à procura de uma potencial arma que aterrorizará os Estados Unidos. A história situa-se em 1957, num período caracterizado pelo medo atómico do fim da segunda guerra mundial e a tensão constante da Guerra Fria.

A animação é belíssima, feita à mão numa época em que Toy Story já havia estreado; não tem os preciosismos de algo vindo do Estúdio Ghibli, mas o traço é tão preciso, as cores tão vivas e as expressões das personagens tão lifelike que é impossível não apreciar o nível de detalhe que foi colocado pelos artistas. Bird tem uma queda para as paletas saturadas e avermelhadas, uma peculiaridade que eu também partilho pelo que as cenas de fim da tarde em O Gigante de Ferro ou ao início da manhã são-me particularmente atraentes.

Algo que também salta à vista é a sensibilidade quase instintiva que Bird tem no que toca ao enquadramento: Hogarth é um rapaz pequeno ao passo que o gigante é, bem, gigante, pelo que as cenas com os dois juntos precisam de um toque especial para termos noção dessa disparidade de alturas e de escala. O realizador faz um papel fantástico, com ângulos de ponto de vista, reflexões de espelho e establishing shots que nos mostram as redondezas e estabelecem a geografia dos locais com grande rigor.

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A história toca em temas anti-armas e anti-guerra, colocando a pergunta “e se uma arma tivesse alma?”, sendo a arma em questão o Gigante de Ferro, que simpatiza com Hogarth mas não consegue escapar aos desígnios pelos quais foi criado, perdendo o controlo do seu corpo mutável sempre que vê uma pistola ou lhe apontam algo mesmo sem intenção violenta. O propósito está lá, e os breves 86 minutos de duração do filme ajudam a que o tema não seja marretado na cabeça dos espetadores com demasiada força.

Mas ao mesmo tempo não posso deixar de pensar que o argumento trabalha com uma relação demasiado binária do que é bom ou mau, demonizando os militares (até ao final do filme, onde parecem todos mudar de atitude porque têm um míssil nuclear prestes a ser-lhes enfiado onde o sol não brilha) e a sua propensão para destruir tudo o que é desconhecido ao mesmo tempo que cria personagens sem defeitos que conseguem ultrapassar os seus problemas com o menor do esforço. As barreiras que O Gigante de Ferro impõe são algo artificiais e com o claro intuito de criar um conflito que, de outro modo, não existiria.

Isto não é para dizer que tal não é uma possibilidade, até porque a conversa que o filme coloca no que toca ao momento decisivo entre o bem e o mal, e aquilo que nos distingue como indivíduos é uma importante e bem construída, enfatizando a necessidade de não nos deixarmos influenciar pelo mundo de tal modo que ele elimine qualquer singularidade nossa.

No fim, O Gigante de Ferro é uma fantástica primeira longa-metragem de Brad Bird, tocando em temas adultos num filme ‘de crianças’, aliado de uma animação ímpar mas com alguns elementos a nível de guião mal cozinhados. Vale a pena ver só pelo seu estilo maravilhosamente ultrapassado, que serve mais a seu favor do que seria de pensar.

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