The Walking Dead e os antiheróis

NOTA: Spoilers, claro.

Passou ontem na FOX o último episódio da quinta (e melhor) temporada da infame série de zombies The Walking Dead. Há umas semanas havia falado do quão esta melhorou: aprofundou personagens integrais e trouxe finalmente uma sensação do inesperado ao despachar com os Termites em três episódios, criando assim um ímpeto narrativo chocante que sempre faltou à série televisiva.

Mas mais que vilões interessantes e personagens tridimensionais, algo que também melhorou esta temporada foram as camadas de cinzento e a moralidade complexa que torna as histórias realmente cativantes ao mesmo tempo que comentam na psique humana. The Walking Dead sempre se arrastou pelo niilismo ininterrupto, matando personagens a torto e a direito porque o mundo é perigoso e a audiência precisa da adrenalina barata do sangue falso. Ora, este tipo de temática sempre teve o potencial de ser explorado de forma mais satisfatória do que o foi durante quatro temporadas inteiras.

Posso dizer agora que esse potencial foi finalmente aproveitado.

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O incrível destes últimos oito episódios é a maneira como tornam o nosso grupo de heróis em autênticos vilões: Sasha sofre de stress pós-traumático com a morte de Bob e Tyrese, levando-a a antagonizar o resto do grupo com o seu desejo de morte; Gabriel defletiu a culpa de ter morto a sua congregação para os crimes cometidos pelo grupo de Rick aos Termites, criando dissensão em Alexandria ao dizer que não podem confiar neles; Carol manufacturou uma personalidade que remete ao seu eu da primeira temporada, frágil e inocente, uma autêntica mãe-galinha, agora com o propósito de se regozijar com o facto de já não ser a mais fraca; e Rick, passou já por tantas fases de autêntica loucura (*) que a sua erupção nervosa no 15º episódio mais que uma surpresa é uma brisa de ar fresco.

(*) Lembram-se quando ele alucinava com a morte da Lori? Pois, nem os argumentistas da série, pelos vistos. Ou quando decidiu ser pacifista e ficar a plantar couves na prisão enquanto o Governador andava a monte a amassar um exército para o matar. Apesar disso, o seu arco narrativo foi extremamente consistente desde a última metade da quarta temporada, o de uma espiral descendente implacável que o tornou na personagem mais absorvente da série.

Estes vilões (que, na verdade, acabam por ser antiheróis levados ao extremo) confundiram as expectativas do que um final de temporada deve significar: o grupo de Rick enfrenta alguém pior, morrem uns quantos e estão de volta ao mundo selvagem. Desta vez, foi outro grupo, o de Alexandria, a enfrentar a vilania de Rick, e foram esses a ter uma perda – o Pete.

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Não obstante da taxa de mortalidade elevada sempre presente, o tema deste último episódio é a união. Após anos à volta da descrença recalcitrante, da falta de esperança e da misantropia total, The Walking Dead finalmente deu as mãos a temas mais plácidos que criam paralelos extremamente importantes e interessantes com os mais negativos que sempre abordou.

Ponto em questão: Glenn não mata Nicholas pois ambos se apercebem do mundo de merda em que vivem, ao mesmo tempo que vêm um no outro a força (ou a falta dela) que é precisa para progredir e sobreviver. A série mudou a cantiga de que não há absolvição, de que a humanidade está perdida e precisa de assim o ser ou morre, para uma que é apologista da união entre os diversos grupos, da remissão e perdão por erros passados. Só assim é que uma civilização nasce: quando paramos de olhar para o nosso umbigo colectivo.

Por outro lado, o episódio acaba numa nota pesada, com Deanna finalmente a ceder e a ordenar a morte de Pete às mãos de um oh-tão-ansioso Rick. Há coisas que mesmo a civilização não perdoa: assassínio é uma delas. Mas será que foi um demasiado precipitado? Estará a visão de túnel de Rick a incidir demasiado nos impulsos mais animalescos do Homem? Será mesmo esta a estrada a percorrer para manter Alexandria viva?

8596096Morgan não parece pensar assim. O olhar que troca com Rick na cena final é de uma força incrível, tanto pelo que estas duas personagens passaram como pelo paralelo que cria com a última vez em que se encontraram, na qual Morgan é que era o psicopata assentimental e Rick o defensor da vida humana. Será interessante ver o que esta personagem traz para a série, agora que também é um ninja com mad skillz.

Apesar de atalhos preguiçoso de argumento (como caralho é que ninguém notou no portão aberto durante horas?) e alguns constrangimentos devido ao número cada vez maior de personagens (os plots de Sasha e Gabriel sofrem pelo simples facto de que não apareceram vezes suficientes para as suas atitudes serem credíveis), The Walking Dead finalmente descobriu os seus fortes e criou camadas narrativas e humanos cativantes no seu mundo cada vez maior. Continua a estar a léguas das melhores séries de TV, mas é por fim algo recomendável e com pontos de discussão suculentos e bem tratados.

Espera-se apenas que a próxima temporada seja ainda melhor que esta.

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