Frances Ha e o filme feminista

Ou se calhar devia dizer o filme feminino. Ou o filme sobre mulheres. Um novo paradigma de ficção narrativa que se foca na vida de jovens mulheres tipicamente ocidentais e a sua relação umas com as outras e com o mundo. Filmes centrados na sua liberdade moderna e, mais que tudo, na sua independência quanto ao sexo masculino.

A verdade é que esta não é nenhuma new wave de filmes, ou um novo género em ascensão, mas sim uma progressão natural do panorama cinemático atual. Fazer filmes é mais barato e mais acessível desde que o digital veio para ficar, e todas as semanas surgem novos nomes influentes e novas curtas e ideias promissoras. Este tipo de longas-metragens vem em linha com a progressiva igualdade e liberalização dos sexos, e da possibilidade de realizadoras e argumentistas do sexo feminino contarem o tipo de histórias que nós homens temos narrado durante anos.

O estilo low-key indie de filmes como Frances Ha é característico da sensibilidade própria destas realizadoras e escritoras, apesar da imagem preto e branco ser mais um callback às comédias antigas do Woody Allen que outra coisa. Mas em vez de os juntar a todos sob a alçada de um género e reduzi-los a uma classificação, é preferível notar o que os torna tão distinto. E antes de mais: eu não gostei de Frances Ha.

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Não gostei porque não me identifiquei com as personagens; por mais que as situações me fossem primas e familiares, não ultrapassei o facto de serem duas mulheres a passar por elas. Foi talvez a primeira vez que vi no ecrã tais idiossincrasias e singularidades respetivas a uma maneira de viver que não é a minha: foi fascinante e, ao mesmo tempo, assustador. Porque nunca tinha visto algo do género?

Bridesmaids veio e passou, tal como aquelas comédias da Melissa McCarthy que são tão particulares a um modelo Judd Apatow de fazer filmes e criar personagens. São colírio para os olhos como muitos outros filmes, comédias passageiras que nos divertem no momento e das quais nos esquecemos dez minutos depois quando estamos a partilhar um artigo qualquer no Facebook. Prendem-nos no instante, nada mais. Os papéis principais podem ser protagonizados por mulheres e as histórias que contam revolver à volta dos seus assuntos pessoais, mas são comédias características de um estilo antiquado, de início da década passada, que já não se reflete nas gerações atuais que vêm filmes.

São filmes que, quando está tudo dito e feito, apelam a ambos os sexos pelas situações serem tão generalizadas e as personagens arquétipos de uma mulher idealizada, mesmo na sua imperfeição. Não são de uma especificidade peculiar que realmente as torna identificáveis e ressoa emocionalmente com pessoas à procura de algo mais íntimo num filme. Posso estar a ser duro de mais; Bridesmaids não é um mau filme, apenas considero a sua perspectiva demasiado “adulta”, devo dizer, não que haja nada de errado com isso. Apenas peca pelo olhar pseudo-progressista que é, na verdade, ultrapassado.

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É este vazio de vozes autorais que tem sido preenchido nestes últimos três anos por filmes como Frances Ha, Obvious Child, Appropriate Behavior e mesmo Blue is the Warmest Color. Este último todos conhecemos e é um que me atingiu profundamente com a sua honestidade emocional e graças à complexidade das personagens. Aqui, as mulheres não são ideais por serem fortes e determinadas; são-nas por serem complexas e humanas, com defeitos e virtudes como todos nós, reflexos contrários dos louvados anti-heróis masculinos que há tantos anos perseguimos pelo labirinto inacabável do cinema.

É certo que filmes europeus têm uma tradição mais progressiva, penso em particular na new wave francesa e nas personagens femininas que daí advieram, reflexos das atrizes que as protagonizam com uma intensidade inequívoca. No entanto, sou da opinião que personagens femininas profundas não faltam (mas também não fartam) no cinema: o que falta é a sua independência do ombro masculino, a carência de um veículo onde se possam formar sem serem caracterizadas diretamente pelas suas relações com o homem.

Por outro lado, é óbvio que são influenciadas por essas relações, e que as suas psiques são formadas pelas interações que tomam ao longo da sua vida; mas não são o único motivo para o desenvolvimento particular de mulheres como Frances em Frances Ha, protagonizada por Greta Gerwig no seu melhor papel até à data. Aliás, todo o filme é um testamento à sua relação dependente de forma quase doentia com a sua melhor amiga, Sophie.

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Estas vozes distintivamente femininas encontraram o seu lugar também na televisão, como Lena Dunham em Girls, ou Ilana Glazer e Abbi Jacobson em Broad City. Séries bastante diferentes em tom e comédia de situação, mas igualmente interessantes pela perspetiva definitivamente feminina que nos mostram, particularmente em relação ao sexo e ao corpo masculino. A própria câmara é feminina: não fetichiza as curvas do corpo das atrizes como, anos atrás, certamente faria para apelar ao único público que, supostamente, mais interessava.

Devo referir que Frances Ha é realizado por Noah Baumbach, um homem, mas o guião tem a mão de Greta Gerwig pelo que considero-o parte de uma visão feminista do mundo, autêntica e honesta na sua representação de situações do quotidiano que podemos ver todos os dias durante os nossos afazeres comuns, mas são raramente mostradas quer no grande quer no pequeno ecrã.

Para finalizar, e retomando a minha opinião quanto a Frances Ha, confesso que menti ao dizer que não gostei do filme. Como disse, é fascinante, e ainda hoje me impressiono com a sua veracidade emocional e com a intensidade das performances. Mas também é verdade que não gostei porque mostrou-me uma nova perspetiva, uma nova forma das coisas à qual não estou acostumado. E as novidades, ao mesmo tempo que fascinam, assustam.

As mulheres destes filmes não têm respostas para a vida, são humanas; vivem ao sabor do vento como todos nós. São tão perdidas e desorganizadas como os homens, e é tempo de parar de colocar qualquer um de nós num pedestal inatingível que só prejudica a boa discussão e o entendimento mútuo.