TV & Cinema – A interseção de dois meios

Este é o primeiro de uma série de artigos acerca de “TV & Cinema”, não de um modo geral mas da forma como os dois se sobrepõem cada vez mais nos dias que correm, aproveitando dicas e modas do zeitgeist internacional para ditarem os costumes de tanto o pequeno como do grande ecrã. Um pensar no pós-medialismo que corre nestes dois veículos audiovisuais hoje em dia.

Recentemente, temos assistido a uma enorme migração do grande ecrã para o pequeno ecrã. Actores como Matthew McConaughey e Woody Harrelson tiveram um lugar bastante privilegiado no holofote internacional com a série bem sucedida de 2014 True Detective. O aclamado realizador Steven Soderbergh realizou uma série inteira no verão passado, The Knick, que passou no canal americano Cinemax. Guillermo del Toro conseguiu finalmente realizar e produzir a sua trilogia de vampiros The Strain. É como se as linhas entre cinema e televisão estivessem a desaparecer; torna-se pertinente colocar a questão sobre qual meio audiovisual  permite uma maior liberdade artística que retenha ao mesmo tempo a viabilidade como forma de arte para consumo em massa.

É um dado adquirido que esta é uma moda relativamente recente, mas não é uma sem precedentes. A gema do cinema americano Quentin Tarantino realizou um episódio da série E.R. em 1995, e um do C.S.I dez anos depois. A estrela de Hollywood Glenn Close alargou o seu estatuto para a televisão quando protagonizou personagens nas séries The Shield (em que Forrest Whitaker também participou) e Damages. Realizadores de filmes de comédia como Amy Hackerling e Paul Feig também já haviam feito alguns episódios de sitcoms antes desta recente migração entre meios.

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O centro da questão é que a televisão está-se a tornar cada vez mais um veículo para tanto atores como realizadores explorarem os seus sonhos que não se enquadram no panorama de box office que Hollywood perpetua. Parte da reinvenção como ator de Matthew McConaughey é devida ao seu papel na série True Detective: a sua personagem de Rustin Cohle é de tal modo profunda e complexa que não poderia ter sido protagonizada por muitos atores sem cair para o lado da caricatura ou do cliché. O ator, ao tomar parte desse desafio, provou que conseguia vestir qualquer papel que lhe dessem, em vez da personalidade de Don Juan pela qual era mais conhecido devido aos seus filmes de comédia-romântica.

O mesmo se aplica ao empreendimento de Soderbergh: com dez episódios nos quais canalizar os seus desígnios criativos mais indignos para Hollywood, criou uma narrativa em dez partes, dez horas, todas elas imbuídas com o seu maneirismo visual e estética bem delineada.

Começemos pela pedra basilar da iminente fusão destes dois meios audiovisuais: o Cinema é precursor da Televisão. Um surgiu nos anos 90 do século XIX com os nickelodeons de um minuto e sem som; o outro foi inventado nos anos 20 do século XX, em plena revolução sonora, mas só começou a ser levado a sério como produto comerciável após a segunda guerra mundial e o primeiro broadcast da BBC britânica em 1936.

Portanto, com 50 anos de primazia, o grande ecrã sempre teve, até aos dias de hoje, uma certa soberania sobre o seu irmão pequeno, embora mais difundido e comercializado desde então. Tanto o conteúdo disponível (em termos de ficção) como as histórias que eram contadas na televisão sempre deviam a sua origem aos filmes de cinema. Nenhumas barreiras eram quebradas, como tabus sexuais ou violência explícita, sem antes ter alguma espécie de precursor no grande ecrã. A televisão era escrava às modas e manias do consumismo cinemático, que então replicava, pois era vista como uma forma menor de arte, ou nem sequer era levada a séria como tal.

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Mas as coisas mudam. Cada vez mais e mais atores migram para o pequeno ecrã, assim como realizadores de renome, alguns quase permanentemente, como Steven Soderbergh com a já referenciada série da Cinemax The Knick; ou David Fincher, que após realizar dois episódios para a série da Netflix House of Cards fez um acordo com a HBO para dirigir todos os episódios de uma série intitulada de Utopia, um remake de um programa britânico (que é fantástico e recomenda-se). O argumento será escrito por Gillian Flynn, que também contribuiu para o guião do seu filme mais recente, Gone Girl.

Estes são sinais de um meio em mudança. A televisão é cada vez mais consagrada pelos riscos artísticos que toma, nomeadamente nos canais de cabo como a AMC, HBO, Showtime e FX. Séries como Os Sopranos, Californication, Sete Palmos de Terra, entre outras, têm marcado gerações pelos tópicos adultos e conteúdo gráfico que durante tanto tempo foi interdito ao pequeno ecrã, por se considerar que a sua extensa acessibilidade a todas as faixas etárias era um risco e uma barreira que não se podia cruzar, ou por definirem a audiência televisiva como menos interessada nesse tipo de tópicos que a de cinema, embora ambas se cruzem inevitavelmente.

Todas essas séries datam à primeira metade da primeira década do novo milénio, e desde então que o status quo se alterou ainda mais. Exploraremos o crescimento e maturação destes programas de televisão no próximo artigo.

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