Drive e a NewRetroWave

Há uns dias revi o bombástico Drive, do dinamarquês Nicolas Winding Refn, e continua com o mesmo impacto à segunda volta. Mas agora, quase quatro anos depois, reparo na enorme influência que o seu estilo throwback está a ter no cinema contemporâneo.

Antes de qualquer coisa, devo explicar o termo anacrónico e paradoxal que é NewRetroWave (a ausência de espaçamentos parece-me ser propositada). Este é um ‘novo’ estilo musical sem o ser bem, pois não moderniza propriamente as influências da música new wave em que se inspira; antes pega nas synths e batidas agitantes do género que marcou a década de 80 e percorre-as de forma gritante e agressiva. Parece-me uma cacofonia de estilos divergentes – noto o uso de ritmos de guitarra e reverbs psicadélicos assim como pontadas de música pop indiferente ao quão extraviada parece estar.

A NewRetroWave é dona de uma identidade visual muito demarcada, com raízes claras nos mundos cyberpunk e retrofuturísticos envisionados por cineastas como Ridley Scott em Blade Runner, ou qualquer obra dos Wachowskis. É um floreado que define o estilo, como podemos corroborar pelo trabalho de artistas como Power Glove ou Kavinsky.

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Kavinsky, claro, escreveu a música identitária de Drive, Nightcall. A associação entre os dois é de tal forma sólida que se torna complicado ouvir as synths de Kavisnky sem pensar na carranca de Ryan Gosling, ou vice-versa. Em Drive, a banda sonora tornou-se uma personagem, mas não uma sem pensamento. O seu uso é propositado: tudo no filme é intensamente retro. Desde o guarda roupa à iluminação impregnada de néon, à arquitetura de beco sem saída pouco vista em filmes localizados em Los Angeles. Portanto a banda sonora é apenas mais um factor na criação da personalidade de Drive, embora uma que se tornou indelével e extremamente influente, portanto inseparável do filme.

O mais incrível, agora que se passaram quatro anos desde a sua estreia, não é tanto as inspirações que o próprio filme teve durante o seu processo de criação, mas sim a forma como se tornou influente da sua própria veia fílmica. Acho que comparações a Tarantino são geralmente mal pensadas mas da mesma maneira que o seu seminal Pulp Fiction é um autêntico melting pot de inúmeros filmes e géneros tornados em algo superior, distinto e inevitavelmente copiado até à exaustão, Drive também o é.

Notemos o seguinte: Winding Refn combinou filmes de série B como Bullit, o seu género de ação com car chases, gore descontrolado e temática noir. A textura de Drive é tão original quanto a de Pulp Fiction, e portanto o seu template, o seu cunho, torna-se um alvo fácil de copiar. Mais do que um template talvez: uma carta de autorização visual a todos os realizadores ansiosos por decompor, misturar e remisturar um pastel dos seus filmes favoritos dos anos 80: uma nova geração de cinéfilos tornados realizadores que quer mostrar às audiências mais jovens de hoje as suas predileções ultrapassadas.

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Esta nova corrente cinemática é encabeçada por cineastas como Adam Wingard (You’re Next), Jim Mickle (Stake Land), Panos Cosmatos (Beyond the Black Rainbow) e Jeremy Saulnier (Blue Ruin). Só este passado ano de 2014, os dois primeiros estrearam uma dupla de filmes que podem ser muito bem mostrados como uma double feature, tal é o dialecto estabelecido entre um e outro. The Guest, de Wingard, é excêntrico e ultrajante na forma como mistura John Carpenter, thrillers hitchcockianos como Shadow of a Doubt ou techno-actioniers como o Exterminador Implacável de James Cameron. A trilha sonora é um dos elementos mais agraciados do filme pela forma como solidifica as pistas visuais de tempos passados com uma sonoridade igualmente enferrujada.

O outro é Cold in July, de Jim Mickle, uma entrada mais sólida neste novo canon de filmes de género retro. Iluminado vivamente com perpétuos filtros azuis e vermelhos, os visuais são diferentes das suas influências em Road House ou Blood Simple dos irmãos Cohen, mas mesmo assim símbolos da época do new wave que associamos com a ressurgência de bares e discotecas néon. No filme, Michael C. Hall contracena com um duo de atores que tiveram os altos da sua carreira nos anos 80: Sam Shepard (The Right Stuff) e Don Johnson (Miami Vice). Jim Mickle não pode ser mais óbvio do que isto, excepto pelo facto de que o seu filme é, efetivamente, localizado temporalmente na década de 80.

5Falo disto sem mencionar o transmedialismo preponderante de Drive: para além do estilo musical, jogos como Far Cry 3: Blood Dragon Hotline Miami (que chega a creditar com prestígio Winding Refn pela sua importância na criação do jogo) também comportam o espírito retro e throwback do filme.

É como se toda uma geração de artistas estivesse apenas à espera do melhor momento para mostrar ao mundo aquilo que teriam feito caso as suas carreiras fossem lançadas nos trancisionais anos 80. Winding Refn abriu a caixa de pandora deste estilo particular, em parte melting pot tarantinesco, em parte melancolia e nostalgia milennial de uma época passada.

Será interessante ver como esta estética vai continuar a ser replicada no grande ecrã; se o próprio realizador dinamarquês vai retornar a ela (o seu novo filme, The Neon Demon parece envergar o mesmo estilo visual) e quem mais vai tentar a sua sorte nesta corrente cinemática musical, violenta e definitivamente masculina.

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