Foxcatcher e a queimadura lenta

Foxcatcher é o primeiro filme que vi do realizador Bennet Miller e devo dizer que não fiquei nada impressionado.

Minto; fiquei um pouco. As performances dos três atores principais são sólidas: Mark Ruffalo faz um fantástico irmão mais velho, severo quando ocasião pede mas gentil de coração, o ator faz passar uma nota afável e enternecedora no que é um filme assombrosamente frio; Channing Tatum volta a mostrar a sua queda dramática, deixando de lado todos os tiques de comédia e gestos mais slapstick de que faz uso nos filmes 21st Jump Street, mas acaba por empalidecer em relação aos atores com quem contracena. Steve Carell é o verdadeiro MVP deste filme, quase irreconhecível com um nariz aquilino e protuberante, moldado quase como um bico de ave de rapina; distante e calculista, o seu trabalho como John du Pont faz o filme.

A realização determinada e calculista de Bennet Miller também é de congratular, ponteando o tom azulado e gélido do filme com o amarelo das pistas de wrestling como se insinuando que estas são o coração, a alma de um filme que, ao fim e ao cabo, não o tem. A verdade é que Foxcatcher é extremamente lento, repleto de longas cenas e enormes silêncios que são capazes de aborrecer o mais determinado dos espectadores, independentemente do quão investido ele esteja na história a ser contada.

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Foxcatcher é a adaptação de uma história real sobre dois irmãos que praticam wrestling, Mark Schultz e Dave Schultz e o seu treinador severo e reservado, John du Pont. Lida com temas como inveja, ambição e questões paternais e maternais complicadas, assim como a forma que as nossas tribulações de infância afectam imperdoavelmente a nossa vida adulta e a maneira como nos relacionamos uns com os outros.

Infelizmente, a rigidez obstinada de Foxcatcher tornou-se impenetrável para mim. Não é de todo complicado ou difícil de perceber, mas 134 minutos desprovidos de humor e repleto de cenas em que a tensão cresce a um passo de caracol abominável dificultam a apreciação do filme como um todo bem conseguido. Há conflito, sem dúvida, mas este é arrastado de cena para cena, e a sua resolução chega apenas nos últimos minutos, e mesmo esta sabe a pouco após duas horas de inflexibilidade narrativa.

Bennet Miller explora intensiva e profundamente a psique destes três homens, dando mais que tempo para a audiência perceber os objetivos e as relações das personagens. Estas são quase intimamente dependentes umas das outras, e o filme chega a sugerir um tom homoerótico não só da maneira como as cenas de wrestling são filmadas mas em alguns momentos silenciosos passados maioritariamente com a personagem de John du Pont.

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Efetivamente, é este que acarreta o maior fascínio por parte do espetador. A personagem de Steve Carell é-nos apresentada como rica, poderosa e capaz de tornar real aquilo que o suposto protagonista, Mark Schultz quer: ganhar o campeonato mundial, provando ao seu irmão mais velho que é capaz de atingir o sucesso sem a sua ajuda. As relações de interdependência são extensas e intimamente ligadas aos abusos sofridos por estas personagens, que nunca chegam a ser muito claros. Mark Schultz procura uma figura paterna em John du Pont depois de ter sido, na sua mente, rejeitado pelo irmão Dave e, é-nos sugerido, pelo seu pai antes disso. John du Pont procura a aprovação da sua mãe através do seu empreendimento num desporto que ela não considera estar ao nível da família, mais conhecida pelo trabalho militar e de equitação.

Algo curioso é o quão bem Foxcatcher se insere na obra de Bennet Miller, constituída por três dramas biográficos e um documentário. Moneyball, de 2011, conhecido pela performance de Brad Pitt e a nomeação para uma Oscar de Jonah Hill, também examina a obsessão americana com o sucesso de uma forma quase tautológica e deprimente. O seu filme Capote, de 2005, pode não analisar a moral humana sob o pretexto de um desporto como Foxcatcher ou Moneyball, mas é igualmente irrepreensível na exploração da violência aleatória assim como na tentativa de dar lógica a essa aleatoriedade. Miller parece ter um desejo íntimo de desconstruir estes temas e tem sido razoavelmente bem sucedido nesse empreendimento.

No entanto, a minha opinião final de Foxcatcher não é tão positiva. Retiro o excelente trabalho dos atores e a mão firme do realizador (talvez demasiado firme), mas a ausência de um momento de descarga de tensão, ou até mesmo de um crescendo contínuo e compassado do peso dramático é demasiado sonante. É um filme sólido mas, em última análise, demasiado elusivo.

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