Oscars 2015 – Um balanço

No final, a 87ª cerimónia dos Oscars conseguiu ser simultaneamente previsível e imprevisível pela negativa.

Boyhood foi completamente ignorado à parte da merecida vitória da Patricia Arquette. Birdman dominou por completo todos os aspectos dos galardões dourados, mesmo talvez não o merecendo em alguns casos. É um excelente filme e um dos meus favoritos do ano passado, mas o argumento peca e arrasta em algumas partes; o de Dan Gilroy para o seu filme Nightcrawler merecia mais. Conciso e sucinto, redondo num conceito desafiante e pertinente para a nossa época em que o entrepreneur moderno roça cada vez mais as suas facetas sociopatas; simplesmente a melhor escolha.

A categoria de argumentos, quer original quer adaptado, foi uma confusão imerecida enorme. Apesar do discurso emocional de Graham Moore, não acho que The Imitation Game merecesse o Oscar, não numa categoria rodeada de filmes mais merecedores do prémio, diferentes na sua visceralidade e originalidade. Falo mais de Inherent Vice que Whiplash (um filme singular mas com a sua dose de problemas incontornáveis). O novo filme de Paul Thomas Anderson adaptou o inadaptável com uma mestria que só se vê nos recantos mais escondidos da habilidade humana, jogando com um número exorbitante de personagens mas com um malabarismo narrativo genuíno e ímpar.

969696Por falar em Whiplash, também foi abismal a vitória para Melhor Misutra de Som. Teria sido pior para Melhor Edição Sonora (não que American Sniper tenha sido uma escolha muito melhor), mas de qualquer maneira quase que serviu por prémio de consolação numa categoria que os júris não sabiam como votar. Ah e tal o filme é sobre música então tem que ganhar uma destas, bota o pim pam pum para ver qual delas. Zing.

É um problema secular nestas cerimónias e contínua a não ser corrigido: apesar do número super reduzido de filmes nomeados (*), os júris não os vêm todos. E o problema não está só no facto de a idade média deles ser de 63 anos, enraízados no conservadorismo, um legado de eleitores que digo estarem desligados do que é a obra contemporânea fílmica assim como as necessidades de nomeação e/ou votação para a representação daquilo que é, efetivamente o crème de la crème do que se vê no grande ecrã. Os Oscars são política, mas a política não tem nada de intrinsecamente errado.

(*) Vamos considerar que saem centenas e centenas de filmes por ano, mesmo só contando os produzidos no sistema americano de Hollywood, e destes 500 a 700 são aplicados para a nomeação. 8 filmes de Melhor Filme representam um mísero 1% desta prolífica arte.

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A cerimónia em si foi ok: com pontos altos e baixos, momentos de puro clique emocional e outros de arrastamento ignóbil e piadas mal colocadas, como sempre acontece nestes eventos. Neil Patrick Harris portou-se bem, apesar da comédia em geral não ter encaixado da forma mais natural que, por exemplo, a de Ellen DeGeneres no ano passado encaixou.

Os discursos, por outro lado, foram melhores e mais bem formados, contemporâneos nas suas preocupações e incisivos nos seus comentários sociais; um passo em frente na acreditação de questões que às vezes os Oscars parecem querer esquecer quando, ao fim e ao cabo, filmes são feitos como impulsionadores de mudança, como críticas e ensaios visuais, explorações complicadas de debates internos e externos e proponentes de um mundo equilibrado e melhor.

Foi outro ano, outra cerimónia, com vencedores e perdedores por todo o lado.

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