Inherent Vice e o filme de culto instantâneo

Paul Thomas Anderson atirou a estrutura narrativa para a berma. Não que alguma vez tenha sido particularmente cativo às convenções de arcos narrativos ou de personagem, mas desde sempre que o que interessa ao realizador americano é contar histórias. E que puta de história que Inherent Vice nos conta.

Larry “Doc” Sportello é um detetive hippie privado que vive de constante charro nos lábios e rodeado por uma perpétua névoa, quer física quer mental. Uma noite é visitado pela sua ex, Shasta Fay, que desaparece no dia seguinte. O filme revolve à volta da sua procura e do labirinto complexo de fumo, luzes néon, contracultura hippie dos anos 70 que Thomas Anderson cria neste seu último filme.

Inherent Vice deve muito ao estilo noir. The Long Goodbye, de Robert Altman, é uma clara inspiração (como quase todos os filmes do Altman acabam por ser para Anderson) assim como o The Big Sleep, do seminal Howard Hawks, é uma referência pela maneira como o caso a ser investigado é tão confuso que acaba por não fazer sentido nenhum. E Inherent Vice faz todo o sentido ao fazer zero. Chega uma altura que a própria personagem de Joaquin Phoenix (sempre eclético, um 180º do seu último trabalho em Her) não sabe porque está a falar com determinada pessoa ou como sequer lá chegou; a edição de continuidade em Inherent Vice está de tal forma enraizada na atmosfera alucinatória que o filme cria que acabamos por nem nos preocupar com a confusão.

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As cenas ligam-se por conversas compridas e infinitamente humorosas: as interações entre “Bigfoot” Bjornssen (Josh Brolin, de botão apertado e com um japonês ensaiado) são uma delícia e ficam melhores com a segunda visualização (*), assim como as gargalhadas que se vão amontoando. Mas, apesar disso, parece existir uma força motriz por detrás de todas as ações atrapalhadas das personagens, que por vezes mais parecem galinhas sem cabeça a andar de um lado para o outro.

(*) Todo o filme fica melhor com a segunda visualização. Como já sabemos que não temos que nos preocupar com certos nomes ou pistas visuais aprendemos simplesmente a recostar e a apreciar a meticulosidade da construção cénica de Thomas Anderson, ou o score psicadélico de John Greenwood, noutra contribuição spot-on.

Já mencionei a atmosfera do filme: um caleidoscópio de cores melancólicas e nebulosas, afirmadas pelo sentimento pós-Verão do Amor que permeia a vida interior e exterior deste mundo não-tão-distante. As cenas são filmadas com um tom naturalista que não é muito comum da mise en scène articulada de Thomas Anderson: a iluminação está impecável mas ao mesmo tempo nota-se a intenção de a tornar minimalista, e os long-takes tão particulares deste realizador não são, à primeira vista, complexos do mesmo modo que os de Boogie Nights, Magnolia ou The Master são. Desnudou o filme de alguns aspectos técnicos mais meticulosos mas ainda assim conseguiu manter a força hipnótica das cenas.

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Há uma em particular que me deitou por terra. 7 minutos sem cortes; um monólogo intenso e uma cena de sexo num só. Katherine Waterston é incrível no seu papel como a stoner femme fatale Shasta Fay, e todas as cenas que partilha com Joaquin Phoenix são emocionalmente tocantes. Há tanto em tão pouco nelas: desde uma nostalgia empática, a um sentimento de inocência perdida, ao erotismo desenfreado. A atriz move-se com facilidade no ensemble apesar do seu curto tempo de antena e é a ela que tenho que dar os meus parabéns no meio de um cast repleto de excelentes atores.

E que cast. Benicio del Toro, Reese Witherspoon, Owen Wilson, Michael K. Williams e muitos mais juntam-se aos já nomeados atores para formar uma equipa de cameos glorificados que ajudam a tornar a missão do quem é quem no filme mais fácil e divertida.

No entanto não se perdem no nevoeiro do filme: tornam-se simbólicos da mente falível de Doc Sportello e da própria narrativa labiríntica que o filme constrói; uma teia sedutora de charros e heroína, companhias de ortodontia misturadas com a irmandade ariana e uns pozinhos de bordéis inconsequentes. Inherent Vice é quase como free jazz a ser tocado ao vivo que temos o privilégio de assistir.

O realizador americano, mais conhecido pelo mosaico suburbano de 1999 Magnolia, ou o épico impiedoso de 2007 There Will be Blood, anda desde o início da sua carreira a criar uma linha serpentina e não-cronológica da História americana. Boogie Nights os anos 70 e 80; The Master o pós-guerra; There Will Be Blood o início do século XX; a intenção de Paul Thomas Anderson parece clara. Todos os seus filmes falam-nos de uma América intrinsecamente decadente desde a sua génese idealista, e Inherent Vice encaixa-se impecavelmente neste puzzle notável de um cineasta prodígio.

Um filme muito minimalista, com uma qualidade melancólica indiscernível que o torna único na obra cada vez melhor de Thomas Anderson.

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