Jupiter Ascending e o estilo insubstanciado

Duas coisas acerca do filme mais recente dos irmãos Wachowski. Primeira; podemos abrir uma petição para fazer um supercut de todas as cenas com o Eddie Redmayne e tornar essa a versão oficial do filme? Juro que todas as críticas se dissipariam e o mundo aplaudiria os génios do techno-triller uma vez mais. Já agora, isto é um exagero.

Segunda, este não é o filme que os Wachowski queriam fazer. Pelo menos não inicialmente. Em mais de um momento se nota o quão desastrosa deve ter sido a pós-produção, principalmente no número de cenas e diálogos que foram deixados na sala de edição de modo a arredondar o filme para as tão desejadas 2 horas. O problema deste mandato de estúdio é que desorienta desnecessariamente a audiência, resultando em solavancos tonais que passam freneticamente do humor (se é que lhe podemos chamar humor) para a ação e de volta ao humor numa cadeia de cenas incoerentes e marteladas.

Apesar desta intervenção de estúdio que certamente prejudicou a visão última da dupla de realizadores, mesmo na sua versão extra-longa e idealizada o argumento seria uma autêntica bosta. É incrível para mim como uma dupla consagrada de Hollywood com 6 filmes no bolso ainda não aprendeu a regra fílmica seminal: show, don’t tell. É certo de que quem se preze pela área já está farto de ouvir este axioma e até argumente que possam existir outras formas de fazer filmes mas convenhamos: certamente não se referem a Jupiter Ascending.

A história de uma forma resumida é esta: Jupiter Jones (protagonizada por Mila Kunis) descobre que é a reencarnação de uma nobre alienígena cujos filhos competem pela sua herança e fortuna, e antes que possa ser morta é salva por um hominídeo/canídeo chamado Caine Wise (Channing Tatum). Depressa se vê como a única salvação da Terra.

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O filme é um pastel insípido de diálogos de exposição e sequências de ação desleixadas (salvo uma excepção) com um cheirinho a creme de recheio (leia-se: substância) que não passa de uma frívola tentativa de pseudo-intelectuais. Há cenas em cima de cenas somente dedicadas a aborrecer e a entorpecer o espectador acerca de minuciosidades secas: hominídeos com ADN de um cão ou de um elefante, famílias reais milenárias com propósitos desnecessariamente complicados e planetas distantes que só servem como colírio para os olhos. Esboçam uma tentativa de profundidade temática mas teimam em apenas raspar a superfície. Essas cenas falam-nos do que as personagens são, mas não de quem elas são.

A verdade é que este é um pecado menor pelo qual todos os filmes de ficção científica têm que passar de modo a estabelecer as regras do mundo envolvente e as personagens alienígenas à nossa realidade que nele existem. Por outro lado, o que separa bons filmes de ficção científica de filmes como Jupiter Ascending é o quão divertidas essas cenas são.

Passo a exemplificar. Voltemos atrás no tempo para o ano longínquo e assustador de 1999 onde ainda havia internet por cabo e as pessoas usavam cabines telefónicas. Nesse ano os irmãos Wachowski lançaram um filme revolucionário pelo nome de Matrix. Comparemos as cenas de exposição de Jupiter Ascending às dessa peça cinematográfica: naquele, aprendemos acerca do mundo através de diálogos extra-longos em que as personagens se sentam em cadeiras infinitamente entediadas com a sua própria existência até ao próximo vilão irromper pela parede e forçar o conflito. Matrix, por outro lado, transporta-nos para set-pieces extremamente bem conseguidas em que descobrimos as idiossincrasias daquele mundo ao mesmo tempo que Neo leva na boca de Moebius num programa de inteligência artificial e as restantes personagens os observam e fazem apostas comicamente sobre quem será o vencedor. Qual destes dois cenários parece mais divertido?

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Agora uns pontos positivos antes de voltar a devorar este filme como Eddie Redmayne fez figurativamente com o seu cenário. Os visuais são excelentes, sumptuosos, concebidos com a mesma atenção ao detalhe que tornou o argumento estupidamente excessivo. No entanto, aqui servem para dar o carisma necessário ao resto do filme. Cada local e pormenor, dos vários planetas que visitamos aos vestidos envergados pela personagem de Mila Kunis e pela família real de Abrasax (os vilões do filme) são realizados vividamente, transbordando de cor e de um verdadeiro domínio do género que falha nos restos componentes.

O CGI não treme em nenhuma parte (apesar da Mila Kunis ser uma tela isenta de expressão com os green screens, como já tinha acontecido em Oz, the Great and Powerful) e o design das naves é fantástico. Longe vão os tempos das latas velhas e pesadas que ainda no ano passado vimos em Guardians of the Galaxy; aqui bem que podiam ser robôs por montar, interligados por veias elétricas e magnetismos verdadeiramente futuristas que me deixaram a salivar por mais. A arquitetura quase rócócó dos edifícios é outro elemento vibrante do filme que joga de forma excelente com os seus aspectos mais outré.

Do mesmo modo, a melhor sequência de Jupiter Ascending é uma montagem que chega a meio e que, se for sincero, não pertence ao restante estilo e tom estabelecido previamente pelos Wachowski, mas é simplesmente deliciosa. Nesta montagem somos levados numa montanha-russa burlesca com claras referências visuais e temáticas a obras passadas: o banco de Gringotts nos filmes/livros do Harry Potter, os floreados visuais do The Fifth Element de Luc Besson e a distopia burocrática de Brazil, realizada por Terry Gilliam (que, só por acaso, aparece no filme como candidato a um dos melhores cameos do ano). A crítica é óbvia e fácil aos aspectos burocráticos de uma sociedade capitalista e, no contexto do filme, de como a própria genética é tornada simultaneamente numa moeda e numa religião, elucidando minimamente o tema principal do filme e da permutabilidade de ambos.

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Fora isto, nada funciona. A química entre Mila Kunis e Channing Tatum é inexistente, extremamente forçada e o romance está lá apenas apenas devido ao desvairado e repreensível desejo dos Wachowskis de quererem ter outro Neo e Trinity, como se em pleno 2015 ainda precisássemos de atribuir um romance à personagem principal de um filme de ação.

Para finalizar, tenho lido algumas análises que formam um algo convincente argumento de que devemos apoiar e ver Jupiter Ascending só porque é um filme original de ficção científica, não uma adaptação medíocre de livros/banda-desenhada ou um reboot desinspirado que não traz nada de novo à conversa. Eu tenho que discordar porque, “original” ou não, não deixa de ser uma regurgitação cíclica de influências cinemáticas e literárias com décadas de existência, correndo sofregamente de plot point para plot point sem dar tempo para respirar com medo que a audiência se aperceba o quão vazia toda a aventura está a ser.

Hollywood deve sem dúvida apostar em propriedades originais de realizadores que possam realmente fazer algo com os 150 milhões de dólares, não em flops de patins planadores prontos a descarrilar a partir do momento que tomam voo.

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